sábado, 9 de agosto de 2014

4. Memórias ao longo dos rios: a vida é nada?


A vida é nada?
Dia consagrado à pesca na Barragem da Torre do Pinhão.
Em Vila Real seguiu-se por Sanguinhedo e uma vez em Campo de Jales, no Restaurante Jardim, a enérgica e simpática Cristina tirou-nos as licenças de pesca da Associação Caçadores e Pescadores do Planalto de Jales.
Numa paisagem verde seca, com calhaus cinzentos a bolearem os montes, com urzes a resistirem à seca, num lago artificial de beleza inusitada, tentámos as trutas. Fizemos três trutas de 25, seguidas…depois, dir-se-ia que nos abandonaram. E foi só! Demos a volta à pequena, recatada e intrigante barragem e ainda negociámos umas informações com dois pescadores locais, que em forma de paciência prolongada se iam desfazendo em lamentações. Insistiam:
- Passamos aqui o nosso tempo.
Quando o tempo se passa a pescar peixe nenhum, o tempo talvez não valha a pena gastá-lo assim. Se cada um tem uma vida, que gasta a pescar e nada pesca, pode concluir-se que a vida resulta em nada – é nada.
Por acaso ou não, nós pescámos três trutas e não passamos aqui o nosso tempo. Por outro lado, as nossas sensibilidades ouvem concertos e os nossos olhos vêm pinturas: já ouvimos as rãs a coaxar, já vimos os bichos-palheiros nas rochas submersas, já cheirámos o poejo apanhado nos charcos dos pés, já inspirámos o ar limpo deste planalto.
No dia seguinte, o mesmo aconteceu, mas no Bessa. Mais três trutas, pescadas com moscas secas de cabeça vermelha, nos regatos verdejantes de labaças. Ao buldo, a insistir muitas vezes.
Trocamos sempre as voltas à vida!

13 e 14 de Março, terça e quarta, de 2012
Luís M. Borges


 

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