Beleza primordial
A boca dela nunca se abriu. A dor?
Mas, os seus olhos abriram-se e muito. O espanto?
Resistiu com violência. Pela vida?
Na margem, por entre testemunhas vegetais e quietas, um pescador
esforçava-se por limitar a acção de fuga de uma enorme truta, que tentava
desesperadamente enfiar-se no abrigo de árvores submersas, caídas de velhas,
entrançadas a ramos revestidos de folhas e de restos de rio trazidos pela
corrente.
Era uma truta adulta, beleza primordial, experimentada, com muitos
anos de cuidados e de cautela, geração mais velha de uma espécie em declínio.
Numa ânsia de posse, o predador humano esqueceu-se de si, ignorou o
mundo, concentrou-se em exclusivo, perdeu a noção de tempo. O absoluto acontecia.
Lentamente, meia submersa, exausta, é puxada para a margem. Às mãos do seu
principal adversário, sente o fim num sufoco e através de uma dor atroz.
“Vitória” do ser humano, tragédia para a bela truta. Sem consciência,
estas vitórias são alegres. Com consciência, estas vitórias são tristes e
penosas. A mim, acontece-me tantas vezes! Gosto muito do acto de pescar, mas
por dia, quantas vezes tenho de assumir tristezas sem fim!
A vida desta truta acabou em meia hora. Um amigo do pescador içou-a
numa fateixa, deslumbrado. Gabo e admiro a habilidade do pescador e a destreza
do amigo, mas… Porque nos deslumbra a possibilidade da captura e da morte? Será que esta
pergunta, neste contexto, terá validade?
Obs: Truta de um (1 Kg) de
peso, capturada por Adérito Alves no rio Cávado, no dia 8 de Março, com a ajuda
do Fernando.
Rio Cávado, 8 de Março de 2013
Luís M. Borges

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