O desabar da chuva
Vaz de Carvalho, Adérito Alves, Luís Borges
O peso das árvores molhadas, o espaço mais
ocupado do rio, o volume nada geométrico das rochas húmidas de luzidias, o
desenho das silvas como serpentes a estenderem-se prontas a morder, o verde em
palma dos fetos no berço da terra, o martelar da chuva no nosso horizonte
circular – este o cenário completo, que cheirava a dia molhado.
Sinceramente, mesmo em dias de intensidade chuvosa, não dá para deixar
de abraçar com os olhos e com o afecto e com o estar, este fabuloso rio Paiva.
Quando me faltar este meu pedacinho de planeta, serei pobre e infeliz. Só
espero, que o tempo não envelheça depressa, como diria Tabucchi.
O trio dividiu pedaços de rio, dissimulando-se e aplicando técnicas
subtis, tentando adivinhar peixes disponíveis, ouvindo o silêncio. Outra curva,
novo recanto, recente remanso…tudo isto para nós pescadores ambulantes: seringar,
seringar com canas…
Havia outros pescadores num dos pedaços do rio, tirou-se a foto,
insistimos na análise das lides matinais e moveu-se a fome para o almoço. No
parque de merendas de Meitriz, o céu abriu-se ao sol, oferecendo-nos apenas uma
hora, a necessária para o presigo. Que conjugação!
Já na tarde, o desabar da chuva persistiu, mas mesmo assim a
desejarmos peixes num dia seco, para apenas conseguirmos ter a ilusão no caminho
da desilusão.
Concluímos: que os peixes ficaram surpreendidos com tanta chuva e com
o rio a subir depressa e com aquela cor castanha da água e talvez com a nossa
insistência - pelo que decidiram ignorar-nos. E bem!
Entre Meitriz e Pereiro, 03 de
Maio de 2012,
Luís M. Borges

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