quarta-feira, 13 de agosto de 2014

30. Memórias ao longo dos rios: Venda Nova e boga recorde



Venda Nova: uma boga a ombrear com trutas
 
O tempo assentou-nos com chuva e vento, nestes dois dias de pesca, efectuados na barragem da Venda Nova.
Eu já ansiava por estas sensações de Outono. Incomodava-me, quase intoleravelmente, a continuação de um calor desalinhado, descontextualizado. Quando senti no rosto a intensidade das gotas de água da chuva, as mãos molhadas e um leve desconforte nas costas provocado por um frio penetrante, pensei diferente e falei a pensar:
- Ainda acabarás por desejar que a chuva, o vento e o frio, se transformem de novo em tempo seco, ameno e quente.
Nós, os seres humanos somos assim. Só gostamos de estar onde não estamos; só gostamos de ter o que não temos; só gostamos de sentir o que não sentimos; só gostamos de imaginar o que não vemos; só gostamos de pensar o impossível.
Contudo, aceitei e concluí, igualmente a pensar:
- Bem-vindo a este Outono folhado de amarelo, de árvores já semi-nuas, de céus cinzentos, do desejo por lareiras a crepitar, por roupas pesadas, por vinho novo, por castanhas assadas.
No 1º dia, as trutas pronunciaram-se por volta das 15h00. Embora esparsamente, compensavam pelo seu bom tamanho. Até às 19h00, por entre aguaceiros e impaciências, estremeceram nos nossos xalavares uns cinco exemplares, de duplo palmo. Vaz de Carvalho ainda experienciou a fuga alucinante, em força e em rapidez, de uma truta senhora, daquelas de antigamente.
Durante toda a noite ventou molhado sobre a terra e sobre os rios. Amanheceu fresco e húmido. Saímos de Quintela, passámos no “Mucha”, a fim de adquirirmos umas bóias e umas chumbadas, indo para o mesmo local de pesca do dia anterior. Chegados, era meio-dia, aconchegámo-nos no café restaurante da Dª Inácia, que nos propôs uma feijoada, vinho tinto da Adega de Sabrosa e as suas famosas pêras Bêbadas.

Chegámos ao local de pesca por volta das 14h00, com chuva a cair como uma desalmada, que nem deixava ver a 20 metros. O tojo e os carvalhos encharcavam e o solo já não bebia mais, rejeitando água em direcção à barragem – em ritmo colossal – a palavra da moda. Vaz de Carvalho, de fato verde lampreieiro, aguentou a desaba, enquanto o meu elegante e leve fatinho de chuva, acabou por absorver o excesso provindao do céu. Tive de recolher ao jipe para me resguardar, a fim de evitar sobretudo uma eventual gripe.
Portanto, nesta tarde irada de inverno precoce, aninhei-me no resguardo, absorto em desconforto e em melancolia.
Às 18h00, eis que sou interrompido pela chegada bem-disposta de Vaz de Carvalho, a arrostar contra a chuva, o vento e o frio, aberto num sorriso olímpico. Ufano, apresentou-me a pescaria: 4 trutas e uma boga de catedral. Nunca tinha visto uma boga deste tamanho: pesava 598 grs e media 39 cm de comprimento. As trutas eram mais pequenas.
- Sim senhor! 

Logo após, o destino era Cerva. Refira-se, que Vaz de Carvalho tinha combinado com o seu primo Tó um jantar em comum, na casa de Quintela. Porque se tornou impossível comprar umas costeletas ou o que quer que fosse de parecido em Arco de Baúlhe, pois às 20h00 os talhos já não atendiam, decidimos anular o convite e fomos pousar na “Cuspideira” (como lhe chamava VC, e que era o Restaurante Churrasqueira do Paço, em Arco de Baúlhe, Cabeceiras de Basto). Atendeu-nos um bacalhau assado na brasa, acompanhado de batatas a murro e grelos e um delicioso vinho tinto local. Comeu-se, bebeu-se e pagou-se bem. Quando é assim, até que aceito!
Barragem da Venda Nova, 24 e 25 de Setembro de 2012
Luís M. Borges

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