Venda Nova: uma boga a ombrear
com trutas
O tempo assentou-nos com chuva e vento, nestes dois dias de pesca,
efectuados na barragem da Venda Nova.
Eu já ansiava por estas sensações de Outono. Incomodava-me, quase intoleravelmente,
a continuação de um calor desalinhado, descontextualizado. Quando senti no
rosto a intensidade das gotas de água da chuva, as mãos molhadas e um leve
desconforte nas costas provocado por um frio penetrante, pensei diferente e
falei a pensar:
- Ainda acabarás por desejar que a chuva, o vento e o frio, se
transformem de novo em tempo seco, ameno e quente.
Nós, os seres humanos somos assim. Só gostamos de estar onde não
estamos; só gostamos de ter o que não temos; só gostamos de sentir o que não
sentimos; só gostamos de imaginar o que não vemos; só gostamos de pensar o
impossível.
Contudo, aceitei e concluí, igualmente a pensar:
- Bem-vindo a este Outono folhado de amarelo, de árvores já semi-nuas,
de céus cinzentos, do desejo por lareiras a crepitar, por roupas pesadas, por
vinho novo, por castanhas assadas.
No 1º dia, as trutas pronunciaram-se por volta das 15h00. Embora
esparsamente, compensavam pelo seu bom tamanho. Até às 19h00, por entre
aguaceiros e impaciências, estremeceram nos nossos xalavares uns cinco
exemplares, de duplo palmo. Vaz de Carvalho ainda experienciou a fuga
alucinante, em força e em rapidez, de uma truta senhora, daquelas de
antigamente.
Durante toda a noite ventou molhado sobre a terra e sobre os rios.
Amanheceu fresco e húmido. Saímos de Quintela, passámos no “Mucha”, a fim de
adquirirmos umas bóias e umas chumbadas, indo para o mesmo local de pesca do
dia anterior. Chegados, era meio-dia, aconchegámo-nos no café restaurante da Dª
Inácia, que nos propôs uma feijoada, vinho tinto da Adega de Sabrosa e as suas
famosas pêras Bêbadas.
Chegámos ao local de pesca por volta das 14h00, com chuva a cair como
uma desalmada, que nem deixava ver a 20 metros. O tojo e os carvalhos
encharcavam e o solo já não bebia mais, rejeitando água em direcção à barragem –
em ritmo colossal – a palavra da moda. Vaz de Carvalho, de fato verde
lampreieiro, aguentou a desaba, enquanto o meu elegante e leve fatinho de
chuva, acabou por absorver o excesso provindao do céu. Tive de recolher ao jipe
para me resguardar, a fim de evitar sobretudo uma eventual gripe.
Portanto, nesta tarde irada de inverno precoce, aninhei-me no
resguardo, absorto em desconforto e em melancolia.
Às 18h00, eis que sou interrompido pela chegada bem-disposta de Vaz de
Carvalho, a arrostar contra a chuva, o vento e o frio, aberto num sorriso
olímpico. Ufano, apresentou-me a pescaria: 4 trutas e uma boga de catedral.
Nunca tinha visto uma boga deste tamanho: pesava 598 grs e media 39 cm de comprimento.
As trutas eram mais pequenas.
- Sim senhor!
Logo após, o destino era Cerva. Refira-se, que Vaz de Carvalho tinha
combinado com o seu primo Tó um jantar em comum, na casa de Quintela. Porque se
tornou impossível comprar umas costeletas ou o que quer que fosse de parecido
em Arco de Baúlhe, pois às 20h00 os talhos já não atendiam, decidimos anular o
convite e fomos pousar na “Cuspideira” (como lhe chamava VC, e que era o
Restaurante Churrasqueira do Paço, em Arco de Baúlhe, Cabeceiras de Basto).
Atendeu-nos um bacalhau assado na brasa, acompanhado de batatas a murro e grelos
e um delicioso vinho tinto local. Comeu-se, bebeu-se e pagou-se bem. Quando é
assim, até que aceito!
Barragem da Venda Nova, 24 e 25
de Setembro de 2012
Luís M. Borges
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