quinta-feira, 14 de agosto de 2014

32. Memórias ao longo dos rios: Rio Minho, Trutas-mariscas e Salmões



Trutas-mariscas e Salmões
 
O rio Minho dá-nos sempre o motivo. Acolhe-nos com a suavidade das suas águas, a verdura das suas margens, a simpatia dos seus habitantes e a possibilidade de praticarmos a pesca às trutas- mariscas e aos salmões.
O ponto de encontro é Moledo, na casa de férias de Vaz de Carvalho.
O grupo compõe-se de vilarealenses, mesmo da 'bila', a maioria. Velhas histórias reafirmam a idade, no silêncio dos mais novos e na curiosidade doutros menos integrados.
As lides de pesca somaram 12 pescadores em 4 barcos, com 2, 3 ou mesmo 4 mestres em cada um deles. Canas a corricar, atenção constante, alegrias ou desilusões. Depois, intervalo para almoço, com petiscos regionais, vinhos de truz, a soma das trutas pescadas e a história do salmão.
De tarde até à tardinha, todos procuraram insistir na abundância e no prazer do excesso. Conseguiram quase todos. Tinham de merecer o jantar de lampreia que VC prometera confeccionar, depois de ter convencido o 'Ratinho' a inventar 3 lampreias e a mandá-las preparar. Logo os apreciadores se afundaram convictos na lampreiada, saborosa, suculenta, até bonita de se ver no seu azeviche brilhante.

Seguiram-se as conversas cruzadas, com pomos de discórdia em tom mais elevado e anedotas e também por vezes remoques políticos e, com frequência, o saborear de digestivos diversos.
Pareceu-me que a desilusão da velhice, acintosa em quase todos os presentes, se   afirmava em forma de ferrete na consciência de cada um. Contudo, a animação provocada pela vivacidade das companhias, pela boa comida, pelas excelentes bebidas e sobretudo pela análise da actividade da pesca lúdica exercida durante o dia, ajudou a reduzir a espuma da idade e a depressão da realidade qual.

As minhas debilidades, as minhas dores e a minha já persistente ideia de limite, foram   largamente ultrapassadas durante este convívio lúdico-tertúlico.
Permitam-me que louve as trutas-mariscas, os salmões e porque não as lampreias e os seus promotores, neste caso sobretudo Vaz de Carvalho, que proporcionou aos aderentes um motivo de mais dois dias vividos em pleno, em condições excepcionais.
Que haja muitos dias de rio Minho. Neste paradigmático rio fronteiriço, todos se sentem mais vivos, todos se sentem renovados, até para além das possibilidades físicas e psicológicas de cada um, até porque “o tempo envelhece depressa”, como dizia Antonio Tabucchi.
Rio Minho, 01 e 02 de Março de 2013
Luís M. Borges

31. Memórias ao longo dos rios: Rio Cávado e Truta primordial


Beleza primordial

A boca dela nunca se abriu. A dor?
Mas, os seus olhos abriram-se e muito. O espanto?
Resistiu com violência. Pela vida?
Na margem, por entre testemunhas vegetais e quietas, um pescador esforçava-se por limitar a acção de fuga de uma enorme truta, que tentava desesperadamente enfiar-se no abrigo de árvores submersas, caídas de velhas, entrançadas a ramos revestidos de folhas e de restos de rio trazidos pela corrente.
Era uma truta adulta, beleza primordial, experimentada, com muitos anos de cuidados e de cautela, geração mais velha de uma espécie em declínio.
Numa ânsia de posse, o predador humano esqueceu-se de si, ignorou o mundo, concentrou-se em exclusivo, perdeu a noção de tempo. O absoluto acontecia. Lentamente, meia submersa, exausta, é puxada para a margem. Às mãos do seu principal adversário, sente o fim num sufoco e através de uma dor atroz.
“Vitória” do ser humano, tragédia para a bela truta. Sem consciência, estas vitórias são alegres. Com consciência, estas vitórias são tristes e penosas. A mim, acontece-me tantas vezes! Gosto muito do acto de pescar, mas por dia, quantas vezes tenho de assumir tristezas sem fim!
A vida desta truta acabou em meia hora. Um amigo do pescador içou-a numa fateixa, deslumbrado. Gabo e admiro a habilidade do pescador e a destreza do amigo, mas… Porque nos deslumbra a possibilidade da captura e da morte? Será que esta pergunta, neste contexto, terá validade?
Obs: Truta de um (1 Kg) de peso, capturada por Adérito Alves no rio Cávado, no dia 8 de Março, com a ajuda do Fernando.
Rio Cávado, 8 de Março de 2013
Luís M. Borges 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

30. Memórias ao longo dos rios: Venda Nova e boga recorde



Venda Nova: uma boga a ombrear com trutas
 
O tempo assentou-nos com chuva e vento, nestes dois dias de pesca, efectuados na barragem da Venda Nova.
Eu já ansiava por estas sensações de Outono. Incomodava-me, quase intoleravelmente, a continuação de um calor desalinhado, descontextualizado. Quando senti no rosto a intensidade das gotas de água da chuva, as mãos molhadas e um leve desconforte nas costas provocado por um frio penetrante, pensei diferente e falei a pensar:
- Ainda acabarás por desejar que a chuva, o vento e o frio, se transformem de novo em tempo seco, ameno e quente.
Nós, os seres humanos somos assim. Só gostamos de estar onde não estamos; só gostamos de ter o que não temos; só gostamos de sentir o que não sentimos; só gostamos de imaginar o que não vemos; só gostamos de pensar o impossível.
Contudo, aceitei e concluí, igualmente a pensar:
- Bem-vindo a este Outono folhado de amarelo, de árvores já semi-nuas, de céus cinzentos, do desejo por lareiras a crepitar, por roupas pesadas, por vinho novo, por castanhas assadas.
No 1º dia, as trutas pronunciaram-se por volta das 15h00. Embora esparsamente, compensavam pelo seu bom tamanho. Até às 19h00, por entre aguaceiros e impaciências, estremeceram nos nossos xalavares uns cinco exemplares, de duplo palmo. Vaz de Carvalho ainda experienciou a fuga alucinante, em força e em rapidez, de uma truta senhora, daquelas de antigamente.
Durante toda a noite ventou molhado sobre a terra e sobre os rios. Amanheceu fresco e húmido. Saímos de Quintela, passámos no “Mucha”, a fim de adquirirmos umas bóias e umas chumbadas, indo para o mesmo local de pesca do dia anterior. Chegados, era meio-dia, aconchegámo-nos no café restaurante da Dª Inácia, que nos propôs uma feijoada, vinho tinto da Adega de Sabrosa e as suas famosas pêras Bêbadas.

Chegámos ao local de pesca por volta das 14h00, com chuva a cair como uma desalmada, que nem deixava ver a 20 metros. O tojo e os carvalhos encharcavam e o solo já não bebia mais, rejeitando água em direcção à barragem – em ritmo colossal – a palavra da moda. Vaz de Carvalho, de fato verde lampreieiro, aguentou a desaba, enquanto o meu elegante e leve fatinho de chuva, acabou por absorver o excesso provindao do céu. Tive de recolher ao jipe para me resguardar, a fim de evitar sobretudo uma eventual gripe.
Portanto, nesta tarde irada de inverno precoce, aninhei-me no resguardo, absorto em desconforto e em melancolia.
Às 18h00, eis que sou interrompido pela chegada bem-disposta de Vaz de Carvalho, a arrostar contra a chuva, o vento e o frio, aberto num sorriso olímpico. Ufano, apresentou-me a pescaria: 4 trutas e uma boga de catedral. Nunca tinha visto uma boga deste tamanho: pesava 598 grs e media 39 cm de comprimento. As trutas eram mais pequenas.
- Sim senhor! 

Logo após, o destino era Cerva. Refira-se, que Vaz de Carvalho tinha combinado com o seu primo Tó um jantar em comum, na casa de Quintela. Porque se tornou impossível comprar umas costeletas ou o que quer que fosse de parecido em Arco de Baúlhe, pois às 20h00 os talhos já não atendiam, decidimos anular o convite e fomos pousar na “Cuspideira” (como lhe chamava VC, e que era o Restaurante Churrasqueira do Paço, em Arco de Baúlhe, Cabeceiras de Basto). Atendeu-nos um bacalhau assado na brasa, acompanhado de batatas a murro e grelos e um delicioso vinho tinto local. Comeu-se, bebeu-se e pagou-se bem. Quando é assim, até que aceito!
Barragem da Venda Nova, 24 e 25 de Setembro de 2012
Luís M. Borges

29.Memórias ao longo dos rios: o António



O António Sousa
 
Às vezes o sol não brilha, a chuva molha-nos e o vento esfria-nos. Mas muitas vezes é outra coisa que acontece e então ficamos acomodados a deixar-nos queimar ao sol, pomo-nos preocupados a olhar as nuvens, nem sorrimos à noite. A mais das vezes rotinamos no tempo e nos espaços, chateamo-nos com as pessoas, quase nos deprimimos connosco, vivemos mesmo sozinhos.
Neste contexto reencontrei o ANTÓNIO. Sabia-o pescador, mas não tanto assim. Tive o prazer de ir à pesca com ele para o rio Sousa, para os lados de GENS, especificamente no troço de rio sob a ponte de Côvelo. Levou um amigo, o Armindo.
O caudal do rio vestia-se de castanho e caminhava rápido. Eu situei-me a montante da ponte, eles a jusante. Eu, a pescar na lúdica, eles numa desportiva de treino. Eu, com a simplicidade da ligeireza habitual, eles com a panóplia de material adequado aos concursos. Eu, com uma canita inglesa de 03,90 m guarnecida de carreto, eles com canas de 12 metros directas. Diria…diferente?
Não, a pesca faz-se com qualquer tipo de tempo, com qualquer forma de estar, com qualquer maneira de ser, com qualquer tipo de material. Diferentes são os amigos, os peixes, os rios e os gostos pela pesca.
Assim, eu pesquei muitas bogas, barbos e escalos, todos eles irmãos no bom tamanho. O António e o Armindo acrescentaram ainda mais.
Foi uma bela manhã, intensa sem esforçar, natural sem cansar, agradável sem saturar, desafiante sem arriscar, desconhecida sem surpreender. Pareceu-me ver no António estes remédios de bom pescador.
Rio Sousa, 4 de Novembro de 2012
Luís M. Borges

28. Memórias ao longo dos rios: Achigãs no Douro


Instantes no tempo: rio Douro
Achigãs

Detivemo-nos na Adega Albufeira e servimo-nos de umas sardinhas assadas, acabádas pelas 15 horas. Depois, descemos sob a ponte do Marco, empurrando o barco para as águas do Douro onde nos acomodámos no pequeno espaço flutuante, enfrentando um sol duro de suportar.
Três maduros, homens pescadores pois claro, a efetuarem lançamentos precisos a centímetros de troncos meio submersos e de pedras irregulares das margens; a mudarem sistematicamente de amostras, cada uma a mais extraordinária, na forma, nas cores, nos efeitos sonoros; a aguentarem a cresta solar com suor, desconforto e queixumes; a ligarem e a desligarem o motor do barco para aproximação aos sítios mais adequados e afastamento de locais perigosos; a capturarem, com todos os efeitos expressionais, gabarolices, desilusões e ironias, pequenos exemplares logo lançados à água ou cacetados para guardar, se o tamanho valesse; a mitigarem a sede amiúde e a deslumbrarem-se pela paisagem ora vidrada de água ora plena de verdura em margens selvagens; a verem surgir nos montes vinhateiros algumas moradias brancas incrustadas, lá mais para o alto, a despertarem-lhes sonhos de posse ou vivência.
Só quando o sol os libertou, desaparecendo no recorte dos montes, é que os achigãs se prestaram a abocanhar os pequenos engenhos enganosos. E foi nos sítios do costume, utilizando a enorme experiência de Vaz de Carvalho, que se satisfizeram as expectativas. Quatro ataques, quatro lutas breves, quatro capturas, quatro afectações mostradas à máquina fotográfica. O maior pesava 2,250 kg e os restantes eram ligeiramente inferiores. O VC engrandeceu-se com o achigã pesadão e o Nelson Mota diminuiu-se com um dos outros. Eu estive por ali apenas a atrapalhar. Poderá acontecer, que na próxima arremetida a estes belos peixes, eu me sinta mais útil e consiga apertar com os dedos aquelas bocas abertas de alguns deles, trazendo-os quietos para dentro do barco.
Paisagem 

As nozes do chão e os figos apanhados por entre as folhas verdes da figueira, souberam ao perfume da Quinta da Cumieira. A Mãe de Vaz de Carvalho assomou muito serena à varanda da casa, tão bem ainda triste, tão moldada ao cinzento do granito, que compunha aquelas colunas de entrada.
- Mãe, venho já. Vou levar o Luís.
Na rua dos Vasos (de Sta Marta) abracei a Elisinha. Jantámos na velha sala, olhando quadros eternos, falando de doenças, num cenário de móveis que me viram crescer.
De manhã seguimos para o Pinhão, barco atracado ao jipe. Na quentura das 9 horas, as poças de vinho duriense com os seus socalcos a subirem, a ajardinarem de verde todos aqueles montes, faziam-nos pequeninos. Que obra! A paisagem dos vinhedos do Douro esmagava-nos com o seu esplendor. Nada mais significava senão a grandeza, o êxtase, a glória. Haja mais pedras e mais monte, que a videira brotará na terra xistosa, sempre subindo por ali acima, tão certinha, guiada pela mão calosa de gerações e sob o olhar enternecido de quem sabe entender o esforço e o denodo do homem e da mulher durienses. Aqui, amadurece a uva, colhe-se e o milagre do melhor vinho acontece. Foi nesta epopeia que passámos o dia, como se percorrêssemos um museu. Nas margens, capturámos alguns achigãs. Poucos. Foram outros quatro de tamanho médio, com Vaz de Carvalho a somar.
Pinhão, 13 de Setembro de 2011
Barbo

Foi na Folgosa que metemos o barco na água, pela rampa do pequeno cais, frente ao AZDouro Café Restaurante. Eram 10h15, a navegarmos barragem acima, à procura dos emboscados achigãs. Neste dia a história conta-se bem depressa. Nas bermas, a centímetros de muros e nos baixios de pedra, sob as ramagens debruçadas, labutavam enormes barbos de 2 a 4 kgs. Alguns tinham 1 metro de comprimento. Procuravam alimentação, do género pequenos camarões e insectos aquáticos, bem como peixitos, batráquios e répteis desatentos. Quando nos aproximávamos desapareciam, afundando-se no mistério das águas. O nosso objectivo não era pescar estes monstros, mas achigãs. Estes, não se mostravam, excepto os mais pequenos, por inocência do perigo e talvez por causa daquela rebeldia juvenil. Os adultos esperavam escondidos, emboscados, que algo de comestível lhes passasse ao alcance. Assim aconteceu com três deles: um para a minha pequena amostra e dois para a barulhenta, berrante e estrambólica amostra de VC.
Mas, por baixo de enormes figueiras inclinadas para as águas, junto a muros velhos a limitarem águas baixas, fomos de novo como que desafiados pelos barbos. Quando nos pressentiam, imediatamente abandonavam o local. Não resisti ao desafio e num canto sossegado, consegui lançar certeiramente uma pequena rapala. Esta, caiu na água com naturalidade. Foi logo um reboliço: um enorme barbo furioso a tentar soltar-se do anzol triplo. Lutou arduamente durante vários minutos até à exaustão, procurando o fundo e a largueza do rio, até que o consegui meter no xalavar. Um digno exemplar! Teria uns 2 kgs. Admirei a harmonia de formas, a cor dourada, a força que transmitia. Libertei-o embevecido.
Não pescámos mais nada, nem barbos nem achigãs.
Regressámos ao cais da Folgosa sob o manto aveludado daquela tarde de Outono. Encontrámos o Visconde, um dos mais célebres pescadores locais, que nos propiciou uns apartes, olhando com atenção à volta para não ser ouvido.
Ficámos entusiasmados com os barbos e ficou marcada uma pescaria específica. Para variar dos achigãs.
E os alburnos, uma nova espécie introduzida, que aos milhões encardumavam à superfície das águas? Fiquei a pensar… embora a VC não lhe tivesse ocorrido a potencialidade destes pequenos peixes.
Folgosa, 6 de Setembro e 11 de Outubro de 2011
Luís M. Borges