Instantes
no tempo: rio Douro
Achigãs
Detivemo-nos
na Adega Albufeira e servimo-nos de umas sardinhas assadas, acabádas pelas 15
horas. Depois, descemos sob a ponte do Marco, empurrando o barco para as águas
do Douro onde nos acomodámos no pequeno espaço flutuante, enfrentando um sol
duro de suportar.
Três
maduros, homens pescadores pois claro, a efetuarem lançamentos precisos a
centímetros de troncos meio submersos e de pedras irregulares das margens; a
mudarem sistematicamente de amostras, cada uma a mais extraordinária, na forma,
nas cores, nos efeitos sonoros; a aguentarem a cresta solar com suor,
desconforto e queixumes; a ligarem e a desligarem o motor do barco para
aproximação aos sítios mais adequados e afastamento de locais perigosos; a
capturarem, com todos os efeitos expressionais, gabarolices, desilusões e
ironias, pequenos exemplares logo lançados à água ou cacetados para guardar, se
o tamanho valesse; a mitigarem a sede amiúde e a deslumbrarem-se pela paisagem
ora vidrada de água ora plena de verdura em margens selvagens; a verem surgir
nos montes vinhateiros algumas moradias brancas incrustadas, lá mais para o
alto, a despertarem-lhes sonhos de posse ou vivência.
Só quando o
sol os libertou, desaparecendo no recorte dos montes, é que os achigãs se
prestaram a abocanhar os pequenos engenhos enganosos. E foi nos sítios do
costume, utilizando a enorme experiência de Vaz de Carvalho, que se
satisfizeram as expectativas. Quatro ataques, quatro lutas breves, quatro
capturas, quatro afectações mostradas à máquina fotográfica. O maior pesava
2,250 kg e os restantes eram ligeiramente inferiores. O VC engrandeceu-se com o
achigã pesadão e o Nelson Mota diminuiu-se com um dos outros. Eu estive por ali
apenas a atrapalhar. Poderá acontecer, que na próxima arremetida a estes belos
peixes, eu me sinta mais útil e consiga apertar com os dedos aquelas bocas
abertas de alguns deles, trazendo-os quietos para dentro do barco.
Paisagem
As nozes do
chão e os figos apanhados por entre as folhas verdes da figueira, souberam ao
perfume da Quinta da Cumieira. A Mãe de Vaz de Carvalho assomou muito serena à
varanda da casa, tão bem ainda triste, tão moldada ao cinzento do granito, que
compunha aquelas colunas de entrada.
- Mãe, venho
já. Vou levar o Luís.
Na rua dos
Vasos (de Sta Marta) abracei a Elisinha. Jantámos na velha sala, olhando
quadros eternos, falando de doenças, num cenário de móveis que me viram
crescer.
De manhã
seguimos para o Pinhão, barco atracado ao jipe. Na quentura das 9 horas, as
poças de vinho duriense com os seus socalcos a subirem, a ajardinarem de verde
todos aqueles montes, faziam-nos pequeninos. Que obra! A paisagem dos vinhedos
do Douro esmagava-nos com o seu esplendor. Nada mais significava senão a grandeza,
o êxtase, a glória. Haja mais pedras e mais monte, que a videira brotará na
terra xistosa, sempre subindo por ali acima, tão certinha, guiada pela mão
calosa de gerações e sob o olhar enternecido de quem sabe entender o esforço e
o denodo do homem e da mulher durienses. Aqui, amadurece a uva, colhe-se e o
milagre do melhor vinho acontece. Foi nesta epopeia que passámos o dia, como se
percorrêssemos um museu. Nas margens, capturámos alguns achigãs. Poucos. Foram
outros quatro de tamanho médio, com Vaz de Carvalho a somar.
Pinhão, 13
de Setembro de 2011
Barbo

Foi na
Folgosa que metemos o barco na água, pela rampa do pequeno cais, frente ao
AZDouro Café Restaurante. Eram 10h15, a navegarmos barragem acima, à procura
dos emboscados achigãs. Neste dia a história conta-se bem depressa. Nas bermas,
a centímetros de muros e nos baixios de pedra, sob as ramagens debruçadas, labutavam
enormes barbos de 2 a 4 kgs. Alguns tinham 1 metro de comprimento. Procuravam
alimentação, do género pequenos camarões e insectos aquáticos, bem como
peixitos, batráquios e répteis desatentos. Quando nos aproximávamos
desapareciam, afundando-se no mistério das águas. O nosso objectivo não era
pescar estes monstros, mas achigãs. Estes, não se mostravam, excepto os mais
pequenos, por inocência do perigo e talvez por causa daquela rebeldia juvenil.
Os adultos esperavam escondidos, emboscados, que algo de comestível lhes
passasse ao alcance. Assim aconteceu com três deles: um para a minha pequena
amostra e dois para a barulhenta, berrante e estrambólica amostra de VC.
Mas, por
baixo de enormes figueiras inclinadas para as águas, junto a muros velhos a
limitarem águas baixas, fomos de novo como que desafiados pelos barbos. Quando
nos pressentiam, imediatamente abandonavam o local. Não resisti ao desafio e num
canto sossegado, consegui lançar certeiramente uma pequena rapala. Esta, caiu
na água com naturalidade. Foi logo um reboliço: um enorme barbo furioso a
tentar soltar-se do anzol triplo. Lutou arduamente durante vários minutos até à
exaustão, procurando o fundo e a largueza do rio, até que o consegui meter no
xalavar. Um digno exemplar! Teria uns 2 kgs. Admirei a harmonia de formas, a
cor dourada, a força que transmitia. Libertei-o embevecido.
Não pescámos
mais nada, nem barbos nem achigãs.
Regressámos
ao cais da Folgosa sob o manto aveludado daquela tarde de Outono. Encontrámos o
Visconde, um dos mais célebres pescadores locais, que nos propiciou uns
apartes, olhando com atenção à volta para não ser ouvido.
Ficámos
entusiasmados com os barbos e ficou marcada uma pescaria específica. Para
variar dos achigãs.
E os alburnos,
uma nova espécie introduzida, que aos milhões encardumavam à superfície das
águas? Fiquei a pensar… embora a VC não lhe tivesse ocorrido a potencialidade
destes pequenos peixes.
Folgosa, 6
de Setembro e 11 de Outubro de 2011
Luís M. Borges