domingo, 10 de agosto de 2014

21. Memórias ao longo dos rios: Rios Cabril e Cabrão



No Cabril e no Cabrão
 
Os dois rios eram das cabras e do pastor. O Cabril e o Cabrão juntavam-se por ali às cabras. Nós víamos de longe a cena única e fez-nos sorrir a fonética das três designações. Um pintor naturalista, se fosse a Mondim de Basto, passasse por Ermelo e continuasse a subir em direcção às Fisgas de Ermelo, certamente criaria telas com interesse.
O Cabrão, a correr com um palmo de altura sobre seixos brancos, mostrava bogas palmeiras fugidias. Pescar ali, nem que fosse só duas ou três destas criaturas, bastaria à satisfação e ao contentamento! A descaída do Cabril, a jorrar água por entre as raízes de enormes carriços, deu-nos jeito para pescar. O poço rendeu-nos alguns escalos, pequenos, aligeirados à água rapidamente. Mais acima, na suavidade do açude, onde se podia contemplar o silêncio, havia quietude e formosura. Em tardes de lazer era diferente, o açude era massacrado. Neste espelho de água não pescámos, limitámo-nos a pousar os olhos, a ficar quedos e emudecidos…
A esforço, decidimos regressar, com as cabras em gestos repetidos, a moerem mais tempo também repetido. Atravessámos de novo o Cabrão, o dos seixos rolados pelos dias redondos e pela água incansável, onde moravam as tais bogas.
Mais uma manhã. Mais uma tarde. Mais dois rios.
Ermelo, 09 de Julho de 2012
Luís M. Borges

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