No
Cabril e no Cabrão
Os dois rios eram das cabras e do pastor. O Cabril e o Cabrão
juntavam-se por ali às cabras. Nós víamos de longe a cena única e fez-nos
sorrir a fonética das três designações. Um pintor naturalista, se fosse a
Mondim de Basto, passasse por Ermelo e continuasse a subir em direcção às
Fisgas de Ermelo, certamente criaria telas com interesse.
O Cabrão, a correr com um palmo de altura sobre seixos brancos,
mostrava bogas palmeiras fugidias. Pescar ali, nem que fosse só duas ou três destas
criaturas, bastaria à satisfação e ao contentamento! A descaída do Cabril, a
jorrar água por entre as raízes de enormes carriços, deu-nos jeito para pescar.
O poço rendeu-nos alguns escalos, pequenos, aligeirados à água rapidamente.
Mais acima, na suavidade do açude, onde se podia contemplar o silêncio, havia
quietude e formosura. Em tardes de lazer era diferente, o açude era massacrado.
Neste espelho de água não pescámos, limitámo-nos a pousar os olhos, a ficar quedos
e emudecidos…
A esforço, decidimos regressar, com as cabras em gestos repetidos, a
moerem mais tempo também repetido. Atravessámos de novo o Cabrão, o dos seixos
rolados pelos dias redondos e pela água incansável, onde moravam as tais bogas.
Mais uma manhã. Mais uma tarde. Mais dois rios.
Ermelo, 09 de Julho de 2012
Luís M. Borges

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