sábado, 9 de agosto de 2014

9. Memórias ao longo dos rios: Sabor a canela



Sabor a canela
Os escalos de escabeche sabiam a canela. Na locanda da D. Emília em Ponte de Telhe, foi-nos concedido utilizar uma mesa, a troco de umas cervejas e de uns cafés. Almoçámos saborosamente!
Saímos a discutir o gosto do peixe, com o Vaz de Carvalho a informar, que as perdizes caçadas há longos anos no Tinhela, na Serra da Padrela, nesta altura do ano em que a urze se veste de flores roxas, também sabiam a canela. E até as trutas.
Metemo-nos no Rio Paiva em Pereiro, por entre salgueiros e amieiros a despontarem folhagem nova, com o monte em frente pintado de urze e de giestas em roxo/amarelo. O rio tinha crescido pelas chuvadas de anteontem. Melhor assim! Um vento forte e gelado arrefecia, fazendo-nos encolher. Pior assim!
Os peixes estavam difíceis. Os mais afoitos eram os bordalos, irrequietos de fome e pouco atentos ao perigo. Os escalos, deambulantes, estavam contidos e cautelosos. As bogas e as trutas sorriam talvez. Que vida de pescador, difícil. Só a mestria e a paciência davam tréguas ao nosso desalentado desconsolo.
Aprendemos rio acima e rio abaixo correntes prometedoras; remansos propícios; descaídas onde insistimos; recantos de água parada quase inacessíveis. Também aprendemos caminhos de seixos brancos rolados, em prainhas incomuns, de pedras desencaixadas a barrarem, de folhagem enramada de árvores entrelaçados, de urzes e silvas e fetos e também de campos verdes planos. Nestas margens do caótico natural, do espontâneo autêntico, é que dá para aprender. Só os peixes nos faziam desaprender!
Contudo, o VC aprendeu muito mais do que eu – pescou o dobro. Neste dia, a minha aprendizagem ficou-se, mais uma vez, pela metade.
Pensei no sabor a canela!
 Pereiro, 16 de Abril de 2012
Luís M. Borges

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