Sabor a canela
Os escalos de escabeche sabiam a canela. Na locanda da D. Emília em
Ponte de Telhe, foi-nos concedido utilizar uma mesa, a troco de umas cervejas e
de uns cafés. Almoçámos saborosamente!
Saímos a discutir o gosto do peixe, com o Vaz de Carvalho a informar,
que as perdizes caçadas há longos anos no Tinhela, na Serra da Padrela, nesta
altura do ano em que a urze se veste de flores roxas, também sabiam a canela. E
até as trutas.
Metemo-nos no Rio Paiva em Pereiro, por entre salgueiros e amieiros a
despontarem folhagem nova, com o monte em frente pintado de urze e de giestas
em roxo/amarelo. O rio tinha crescido pelas chuvadas de anteontem. Melhor
assim! Um vento forte e gelado arrefecia, fazendo-nos encolher. Pior assim!
Os peixes estavam difíceis. Os mais afoitos eram os bordalos,
irrequietos de fome e pouco atentos ao perigo. Os escalos, deambulantes,
estavam contidos e cautelosos. As bogas e as trutas sorriam talvez. Que vida de
pescador, difícil. Só a mestria e a paciência davam tréguas ao nosso
desalentado desconsolo.
Aprendemos rio acima e rio abaixo correntes prometedoras; remansos
propícios; descaídas onde insistimos; recantos de água parada quase
inacessíveis. Também aprendemos caminhos de seixos brancos rolados, em prainhas
incomuns, de pedras desencaixadas a barrarem, de folhagem enramada de árvores
entrelaçados, de urzes e silvas e fetos e também de campos verdes planos.
Nestas margens do caótico natural, do espontâneo autêntico, é que dá para
aprender. Só os peixes nos faziam desaprender!
Contudo, o VC aprendeu muito mais do que eu – pescou o dobro. Neste
dia, a minha aprendizagem ficou-se, mais uma vez, pela metade.
Pensei no sabor a canela!
Pereiro,
16 de Abril de 2012
Luís M. Borges

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