domingo, 10 de agosto de 2014

12. Memórias ao longo dos rios: Ponte de Telhe


Bordalo na palma da mão
 
A voz da água já se tinha feito ouvir ao saltar para a estrada à frente do jipe. Nuvens negras despejavam-se sobre a terra e engrossavam fios de água, que fugiam por entre raízes descobertas, troncos maciços e vegetação rasteira. Nos desníveis, lançavam-se como se tivessem vida para a estrada, em forma já de pequenas cascatas. O rio recolhia este sangue novo a dar-lhe corpo e força.
Escolhemos um local espraiado para pescar, de modo a evitarmos os confrontos perigosos entre rochas, o meio das árvores retorcidas e as cascalheiras murmurantes. Este rio submetia-nos e por isso ajeitámos o nosso querer à sua forma de estar e acabámos por esticar as canas.
Os peixes, porque também evitam confrontos, costumam posicionar-se nas bermas calmas e protegidas das margens. Sobretudo duas espécies: o bordalo e o escalo. De subtileza em subtileza, fui destacando exemplares bem adultos, como seja o caso de bordalos com 13 cm, o máximo em tamanho destes irrequietos e fugazes peixes. A escangalhar o ritmo da pesca, lá se metia de vez em quando um escalo graúdo, a espantar o cardume entretido dos bordalos.
Foi neste ambiente discreto, que chuvaradas fortes ocorriam sem previsão, obrigando-nos a esperar molhados. Mas é assim, os prazeres distinguem-nos. Até o travo a maias amargas forçava o nosso olhar, enquanto a noite se aproximava do nosso cansaço. Na palma da minha mão, aquele bordalo, tinha anoitecido de vez!
Ponte de Telhe, 30 de Abril de 2012
Luís M. Borges



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