Bordalo na palma da mão
A voz da água já se tinha feito ouvir ao saltar para a estrada à
frente do jipe. Nuvens negras despejavam-se sobre a terra e engrossavam fios de
água, que fugiam por entre raízes descobertas, troncos maciços e vegetação
rasteira. Nos desníveis, lançavam-se como se tivessem vida para a estrada, em
forma já de pequenas cascatas. O rio recolhia este sangue novo a dar-lhe corpo
e força.
Escolhemos um local espraiado para pescar, de modo a evitarmos os confrontos
perigosos entre rochas, o meio das árvores retorcidas e as cascalheiras
murmurantes. Este rio submetia-nos e por isso ajeitámos o nosso querer à sua
forma de estar e acabámos por esticar as canas.
Os peixes, porque também evitam confrontos, costumam posicionar-se nas
bermas calmas e protegidas das margens. Sobretudo duas espécies: o bordalo e o
escalo. De subtileza em subtileza, fui destacando exemplares bem adultos, como
seja o caso de bordalos com 13 cm, o máximo em tamanho destes irrequietos e
fugazes peixes. A escangalhar o ritmo da pesca, lá se metia de vez em quando um
escalo graúdo, a espantar o cardume entretido dos bordalos.
Foi neste ambiente discreto, que chuvaradas fortes ocorriam sem
previsão, obrigando-nos a esperar molhados. Mas é assim, os prazeres distinguem-nos.
Até o travo a maias amargas forçava o nosso olhar, enquanto a noite se
aproximava do nosso cansaço. Na palma da minha mão, aquele bordalo, tinha
anoitecido de vez!
Ponte de Telhe, 30 de Abril de
2012
Luís M. Borges

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