No final do Inverno…gotas de chuva merecem ser lágrimas
1.Pequeno-almoço
Naquele dia as nuvens
corriam-nos à frente e a chuva batia com força. O frio sustentava este cenário,
uma consistência da época.
Eu, o V.C. e o Paím
dirigiamo-nos para o rio Paiva, destino Espiunca. Outra vez.
Por volta das 11h00,
mais meia hora menos uns minutos, fizemos a nossa habitual entrada no
restaurante do Sousa, sito nas Carvalhas. A Fernandina saudou-nos, naquele seu
jeito de mulher formosa, a que já estávamos habituados.
- Pequeno-almoço…veja
lá…três bifes bons e mal-passados.
Neste aspecto o nosso
VC é sempre muito incisivo e claro.
Não tardou que uma
enorme travessa pousasse devagar, devagarinho, na nossa mesa. Três bifes suculentos
(grandes e altos) ponteados por azeitonas. Os olhos comeram primeiro…
Seguiu-se a
mastigação, porque demorada num vagar apreciativo (de olhos fechados em concentração,
de narinas frementes na busca do odor perfeito).
Igualmente foi poisado
um jarro de vinho, nem meio cheio nem meio vazio, porque um jarro nunca chega
assim…vai ficando é assim, rapidamente.
Já antes de nos
sentarmos, habitava na mesa um cesto de pão estaladiço, ainda quente,
convidativo…
- Ó Senhor de
Matosinhos, dai-me apetite…que te agradeceremos esta dádiva.
Forrado o estômago,
acomodada a satisfação, eis-nos à confiança nas rodas do jeep com destino a
Espiunca.
2.Ritual
Mas, antes de
chegarmos às margens do rio, haveríamos que cumprir um ritual antigo e
arreigado: brindarmos com hidromel, no café da Milita. Três copitos, metade
mel/metade bagaço, serviram de base à ritualização e ao pretexto.
Soltou-se mais a
verve, subiram uns calores ao rosto, a boa disposição condensou-se.
E lá fomos, a dançar,
com estas três evidências. Chegados ao rio, ainda cantávamos…
3.Os peixes que riem
No Inverno a pesca é
fraca. Os peixes riem e riem. Entre a vontade de comerem um pequeno isco e a
liberdade de o rejeitarem, eles riem. E riem porque decidem não tocar no isco.
Assim, a pesca foi como um aperitivo, íamos petiscando de vez em quando uns
peixitos.
A chuva…fazia-se
caindo numa choradeira às vezes calma, outras vezes em soluços constantes. Para
nós pescadores, as gotas de chuva são como lágrimas…
Nesta tarde curta,
arrumado o dia na noite, despertado o frio nocturno, rejeitados os casacos
molhados, assentámos no regressar. E arrumámos 48 peixelhos, 16 meus e 32 do
Vaz.
O jeep ganhou vida e
deixou-se guiar pelo dono.
4.E depois…
E depois, eram 19h00
coisa e tal, mais minuto menos pressa e sentindo em nós uma depressão
incomodativa, decidimos visitar o célebre Ramirinho, em Rans.
Este restaurante, tipo
taberna, vem mesmo a calhar, porque a rota de regresso passa-lhe ao lado.
Pois bem…o Ramirinho
serve presunto e não só. Quando se entra, o colesterol sobe imediatamente, influenciado
certamente pelos presuntos pendurados, pelos clientes encostados ao balcão, pelo
falatório divertido nas mesas, pela frenética aviada e simpática das empregadas.
O vinho verde branco,
as tiras de broa de milho, as azeitonas e a cebola com vinagre, preludiaram o
excelente presunto espalmado em pratos brancos, que não tardou. Ainda caíram na
mesa umas pataniscas. Contudo o presunto foi rei…
- Oh Ramirinho, quanto
do teu presunto e do teu vinho, são gostos de Portugal.
Rans, 15 de Março de 2016
Luís M. Borges








