“O outono é outra primavera, cada folha uma flor” *
O rio Paiva encanta-se
com o Outono. Toma-lhe as cores, os sons, os odores.
As águas recolhem as
folhas e as margens mostram as raízes das árvores como cobras negras
entrelaçadas.
Os cachos de uvas pendentes
e secos das videiras, parecem enforcados, num último e derradeiro esforço de
afrontamento.
As grandes árvores,
mesmo de caules grossos e fortemente agarradas ao solo, já temem as grandes
enxurradas.
Os peixes afanam-se na
busca de alimentação, de modo a ganharem reservas, que lhes permitam sobreviver
ao Inverno de águas geladas e fortes correntes. Só lhes restarão a letargia nos
buracos, até que a próxima Primavera lhes propicie melhores condições de vida.
Ser peixe é lixado!
Serenamente, como se
nada se tivesse que fazer, neste ambiente outonal ioga, a pesca começou. Com
esses pequenos, abundantes, irrequietos e simpáticos peixes, a que chamamos
Bordalos.
O Vaz de Carvalho, pescava
com toda uma artilharia de pormenores; eu, um pouco menos armado ia insistindo e
o Paim a fumar, de mãos nos bolsos, a reter imagens amarelas e provavelmente a
perguntar-se onde estariam os barbos. Havia o retrato de fundo, que era o do
troço do rio Paiva, junto à ponte de Espiunca.
De vez em quando a
chuva vinha ter connosco. Nós tínhamos capas e guarda-chuvas, mas a natureza em
redor não precisava destes subterfúgios. Deixava-se envolver, deixava-se
amolecer, relaxada, como uma mulher depois do amor.
Quando a luz se foi
tornando frouxa, todos tínhamos pescado um número consistente de bordalos,
bogas e escalos. Pescámos a pisar flores, pescámos a inspirar aromas esquecidos.
No segundo dia de pesca,
o mundo era água a desabar. O “casulo” do milho absorvia, mas as pedras
escorregadias da calçada brilhavam; as margens emaranhadas do rio dobravam-se
em reverência; os fetos de mais verde, conspiravam com a abundância; as folhas
das árvores sacudiam-se, caíam, reforçando a desaba; o céu, esse, de tão
cinzentão era um mãos-rotas; o ar acomodava-se em humidade.
É sempre um
deslumbramento esta natureza molhada. A nível de impressões, nada se lhe
iguala, talvez pela conjugação do colorido outonal, com o brilho que a água da
chuva lhe confere.
Deu mais peixe desta
vez. O rio foi crescendo lentamente, as águas começaram a turvar. Os peixes
foram-se chegando às margens. Nós, estávamos lá.
Despedi-me do chão
carregado de folhas amarelas e vermelhas, que tinham caído com o peso da água
da chuva. Tinha ali um canteiro depois da rega. Cada folha era uma flor.
Espiunca, 26 de Outubro e 6 de Novembro
Luís M. Borges
Bibliografia: * Albert
Camus

