sábado, 1 de novembro de 2014

34. Memórias ao longo dos rios_Sob o signo do carneiro


Sob o signo do carneiro




A pesca foi no lugar do costume: Espiunca, frente à Milita.
Já lá ia um tempão, que não pegava na cana ultraleve e pescava bordalos no rio Paiva. Uns bons dois meses, por aí. Demasiado tempo, pelas saudades de toda a envolvência. E por outra razão, a ver com a feição de vida desta espécie de peixes, pois quando o Inverno se fizesse áspero, eles acoitar-se-iam nos buracos e nos raizeiros, em letargia prolongada. Assim, urgia aproveitar estes breves dias de canícula e lá fomos de novo à terra do mel e ao rio, que corria no nosso pensamento.

 Calendarizámos dois dias para o efeito.
Os procedimentos encontravam-se normalizados: começar pela utilização de uma montagem ultrafina (cana directa de 4,5 m; bóia de 0,02 gr; estralho com fio 0,08 e anzol nº 22), aplicar o engodo dos pintos e iscar com o irrequieto morcão. Foi só escolher o local mais propício, tendo em vista dois pormenores: espaço para manejar bem a cana (as árvores abundavam por ali e ajudavam a desgraçar as montagens) e sensibilidade para intuir onde se encontravam os buliçosos bordalos.
O rio corria transparente e o dia pasmava-se de um ameno outonal, perfeitamente adequado para se poder exercer uma pesca calma e agradável. Assim, decidi começar pelo cais das canoas, um lugar aberto com prainha acessível e profundidade descendente até 1,5 metros de profundidade. Com aquele pequeno nervosismo próprio de quem recomeça, iniciei o confronto. Não tardou: os pequenos e velozes bordalos começaram a dar sinal de vida e rapidamente o cacifo deixou cobrir o seu fundo. Uma hora depois (12h00) os pequenotes desistiram de continuar a ser massacrados.

Desci o rio, à procura de novo local, pelo que escolhi uma corrente suave, contraposta a umas rochas ornadas de três árvores, uma ilhota no meio do rio (chegava-se lá patinhando por entre poças de água). Mudei o sistema, pois aqui a profundidade e a corrente eram maiores, para além de ser possível aparecerem barbos e bogas grandes: bóia de 1 gr e estralho com 0,10 de espessura.
Aqui rabalhei até às 16h30, pescando a um ritmo exigente. Os bordalos atingiam os tamanhos máximos (12 cm) e de vez em quando lá se afirmavam uma boga e um barbo. Nas minhas velhas costas, o cacifo já fazia mossa, de pesado que estava, pelo que de novo com o abrandamento das investidas escamais, vi-me obrigado a efectuar uma retirada prudente, poisando-me um pouco mais abaixo, onde os altos amieiros me proporcionaram alguns espaços exercíveis. Os bordalos acederam, embora com mais cautela.

Foi-se esvaindo o dia e regressei ao primeiro local na prainha, a fim de terminar junto ao carro. Eram umas 17h30. Como todo o bom pescador sabe, o anoitecer é propício. Estava convicto, que com uma engodagem regular, as bogas, os barbos e obviamente os bordalos de “posta”, se fariam facilmente ao isco. Assim aconteceu. Esgotei a minha vista a tentar ver a bóia a afundar naquele fusco de luminosidade. Valeu um candeeiro público, que me proporcionou ir vislumbrando a antena branca da bóia. Foi mesmo até entrar o nocturno absoluto.
Entretanto, o VC pescava mais acima, quase ao pé de mim. Desgastava o fracasso. Já tinha chegado há uma hora. Quis tentar só as bogas, tendo esmiuçado o rio em todas as cascalheiras possíveis, acima da ponte de Espiunca, durante todo o dia. As bandidas esquivaram-se à sua notável mestria, o que é verdade, pois reconheço-o como o mais aferroado dos pescadores. Disse-me, que tinha “acaçado” meia dúzia de bogas de média dimensão. A princípio não acreditei, mas pelas explicações, pelo tom, pela desilusão, acabei por me convencer.
- Vaz de Carvalho, quer este candeeiro público? É luz. Pego nele e planto-o aí ao pé de si… 

Às 20h00, o Sousa, do Restaurante das Carvalhas, oferecia-nos a sua mesa familiar. Os cinco (com esposa e filha), consumimos os peixinhos, que a Fatima tinha fritado, acompanhados com arroz de feijão branco. A Fernandinha velava por nós em apoio contínuo, sempre solícita.
Regressámos a conversar vulgaridades até Matosinhos.
Na segunda jornada de pesca, já o prazer do prego no prato ressuscitava novamente velhas lembranças de sabores impossíveis. Eram 11 horas e o paladar nem se lembrou das badaladas. Porquê a soma de tão extremados momentos?
O VC solidificou, a mastigar devagar e eu desfiz-me em devaneios. O Paim, enrolava cigarros noutra mesa e beberricava o seu bagaço, completamente alheio ao perfume do prego e aos nossos devaneios. Já se tinha acopletado com uma patanisca de bacalhau…
O café e sobretudo o hidromel foram soberanos na Milita. Para desgastar!
Finalmente, pousámos os pés à beira do rio, à procura dos escaminhas. O VC queria tentar de novo as bogas.




Desta vez, estranhamente, os bordalos deram à barbatana. Hoje não estavam tão inteligentes como há dois dias. Rarearam no anzol. Porquê? Foram substituídos pelas bogas e pelos barbos. As bogas grandes caíram, sobretudo ao anoitecer. É típico destas gajas. Não se dão durante o dia! E o Vaz de Carvalho aproveitou.
Os três equilibrámos as nossas contas piscícolas, mais ou menos.
Saímos do rio noite cerrada, sem candeeiros, e fomos, obviamente, pousar de novo no Restaurante da Carvalha, a cumprir uma demanda: o carneiro assado no forno esperáva-nos. De novo, sentimos o perfume do apetite, a ânsia da degustação, o desejo dos sabores. O arroz de forno subornou-nos e a perna do anho ocupou-nos todos os sentidos. Dissemos em alta voz, quase em uníssono:
- Que ninguém nos ouse perturbar…
De pesca, estes três insaciáveis pescadores não falaram. Nem pio!
Carvalhas, 30 de Outubro de 2014
Luís M. Borges

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

33. Memórias ao longo dos rios_O toque de veludo



O toque de veludo

Já não via o Silvino há uns bons anos. Foi e continua a ser, provavelmente, o melhor pescador da equipa de pesca desportiva do Orfeão de Matosinhos.
Encontrámo-nos na casa de artigos de pesca Fishisco Comércio, sita no Freixo. Começámos a falar inevitavelmente sobre pesca e materiais, até que as nossas recordações se acabaram por encontrar. Logo ali se combinou efectuarmos uma pesca na barragem de Crestuma/Lever, no lugar onde existe a Marina de Leverinho. Às tainhas. Sim, às tainhas.
Almoçámos às 13h00no Café restaurante Camarão, uma simples carne estufada. Às 14h00, já esticávamos as respectivas linhas de pesca, a fim de tentarmos as tão ansiadas tainhas.
Um aparte: existem ainda por aí algumas cabeças pensantes, que opinam negativamente sobre estas espécies. É óbvio, que elas ganharam má fama, por se concentrarem à saída dos esgotos dos rios e dos mares, em acto alimentar. Mas, pergunto: quem colocou lá os esgotos?
Considero, que a tainha é das espécies marinhas, quando se encontra no seu meio natural, das mais difíceis de pescar. Um autor português, José Maria de Sousa, escreveu num dos seus livros de referência para mim, que a tainha ao comer do anzol, tem “um toque de veludo”. É verdade. Se a configuração da montagem (fio, anzol, chumbinho, bóia, isco) não se apresentar nos mínimos de tamanho e peso, a tainha não pega.

Ora, é justamente esta dificuldade em capturá-las, que se apresenta ao verdadeiro pescador como um desafio.
Assim, foi com enorme satisfação que abancámos frente à Associação Cultural de Leverinho, para trabalharmos em equipa.
Então como foi? O Severino preparou o engodo (1 kg de sardinha bem moída a que juntou 3 kg de farinha de milho), fazendo uma papa consistente, que em bolas do tamanho de laranjas, foram lançadas a 4 metros à nossa frente. O isco, carapau iscado em pequenos grãos de arroz, tinha de cobrir completamente o pequeno anzol. Aplicou-se uma altura do fio do anzol à bóia de 4 metros, uma bóia de 1,5 gr, um estralho de 50 cm de comprimento em fio 0,10 e um anzol branco nº 20. As tainhas começaram quase imediatamente a dar sinal de si e em breve a saírem a bom ritmo. Tainhas medianas (500 /660 gr cada). 

Ao todo e no final da pesca tínhamos capturado 26 tainhas em 2 horas de pesca, porque tivemos de interromper a pescaria por motivos meteorológicos. Caiu-nos em cima um pequeno ciclone, que nos impediu de continuar. Pesca estragada.
Valeu a experiência e o facto de ter arranjado um novo companheiro de pesca, numa área tão especializada. Iremos repetir, pois haverá certamente muitos sábados, em que o alto mar me impedirá de embarcar. Por isso, irei pescar tainhas na boa companhia do Silvino.
No regresso ainda tivemos oportunidade de visitar a Silstar, onde encontrei o Sr. Martins, que tinha aberto o período de saldos. Acabei por adquirir uma cana de 6 metros, justamente para pescar tainhas, a conselho do Silvino.
Derradeiro comentário: gosto imenso de pescar tainhas. E não me venham dizer, que a pesca à tainha, é para pescadores de 2ª classe. Eu não me importo. Que seja!
Barragem de Crestuma / Lever, 11 de Setembro de 2014
Luís M. Borges


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

32. Memórias ao longo dos rios: Rio Minho, Trutas-mariscas e Salmões



Trutas-mariscas e Salmões
 
O rio Minho dá-nos sempre o motivo. Acolhe-nos com a suavidade das suas águas, a verdura das suas margens, a simpatia dos seus habitantes e a possibilidade de praticarmos a pesca às trutas- mariscas e aos salmões.
O ponto de encontro é Moledo, na casa de férias de Vaz de Carvalho.
O grupo compõe-se de vilarealenses, mesmo da 'bila', a maioria. Velhas histórias reafirmam a idade, no silêncio dos mais novos e na curiosidade doutros menos integrados.
As lides de pesca somaram 12 pescadores em 4 barcos, com 2, 3 ou mesmo 4 mestres em cada um deles. Canas a corricar, atenção constante, alegrias ou desilusões. Depois, intervalo para almoço, com petiscos regionais, vinhos de truz, a soma das trutas pescadas e a história do salmão.
De tarde até à tardinha, todos procuraram insistir na abundância e no prazer do excesso. Conseguiram quase todos. Tinham de merecer o jantar de lampreia que VC prometera confeccionar, depois de ter convencido o 'Ratinho' a inventar 3 lampreias e a mandá-las preparar. Logo os apreciadores se afundaram convictos na lampreiada, saborosa, suculenta, até bonita de se ver no seu azeviche brilhante.

Seguiram-se as conversas cruzadas, com pomos de discórdia em tom mais elevado e anedotas e também por vezes remoques políticos e, com frequência, o saborear de digestivos diversos.
Pareceu-me que a desilusão da velhice, acintosa em quase todos os presentes, se   afirmava em forma de ferrete na consciência de cada um. Contudo, a animação provocada pela vivacidade das companhias, pela boa comida, pelas excelentes bebidas e sobretudo pela análise da actividade da pesca lúdica exercida durante o dia, ajudou a reduzir a espuma da idade e a depressão da realidade qual.

As minhas debilidades, as minhas dores e a minha já persistente ideia de limite, foram   largamente ultrapassadas durante este convívio lúdico-tertúlico.
Permitam-me que louve as trutas-mariscas, os salmões e porque não as lampreias e os seus promotores, neste caso sobretudo Vaz de Carvalho, que proporcionou aos aderentes um motivo de mais dois dias vividos em pleno, em condições excepcionais.
Que haja muitos dias de rio Minho. Neste paradigmático rio fronteiriço, todos se sentem mais vivos, todos se sentem renovados, até para além das possibilidades físicas e psicológicas de cada um, até porque “o tempo envelhece depressa”, como dizia Antonio Tabucchi.
Rio Minho, 01 e 02 de Março de 2013
Luís M. Borges

31. Memórias ao longo dos rios: Rio Cávado e Truta primordial


Beleza primordial

A boca dela nunca se abriu. A dor?
Mas, os seus olhos abriram-se e muito. O espanto?
Resistiu com violência. Pela vida?
Na margem, por entre testemunhas vegetais e quietas, um pescador esforçava-se por limitar a acção de fuga de uma enorme truta, que tentava desesperadamente enfiar-se no abrigo de árvores submersas, caídas de velhas, entrançadas a ramos revestidos de folhas e de restos de rio trazidos pela corrente.
Era uma truta adulta, beleza primordial, experimentada, com muitos anos de cuidados e de cautela, geração mais velha de uma espécie em declínio.
Numa ânsia de posse, o predador humano esqueceu-se de si, ignorou o mundo, concentrou-se em exclusivo, perdeu a noção de tempo. O absoluto acontecia. Lentamente, meia submersa, exausta, é puxada para a margem. Às mãos do seu principal adversário, sente o fim num sufoco e através de uma dor atroz.
“Vitória” do ser humano, tragédia para a bela truta. Sem consciência, estas vitórias são alegres. Com consciência, estas vitórias são tristes e penosas. A mim, acontece-me tantas vezes! Gosto muito do acto de pescar, mas por dia, quantas vezes tenho de assumir tristezas sem fim!
A vida desta truta acabou em meia hora. Um amigo do pescador içou-a numa fateixa, deslumbrado. Gabo e admiro a habilidade do pescador e a destreza do amigo, mas… Porque nos deslumbra a possibilidade da captura e da morte? Será que esta pergunta, neste contexto, terá validade?
Obs: Truta de um (1 Kg) de peso, capturada por Adérito Alves no rio Cávado, no dia 8 de Março, com a ajuda do Fernando.
Rio Cávado, 8 de Março de 2013
Luís M. Borges