quarta-feira, 6 de maio de 2015

38. Memórias ao longo dos rios


"...a Primavera e os seus paroxismos que não duram muito..."

1a Parte
Chá de camomila
A Milita estava encerrada, quando o olhar se lhe dirigiu. Foi pena, pois o café caducou após o bife de sangue e sabor na Fernandinha.
No rio baixo, já se viam a brilhar, escamas fugidias. O VC iludiu esta vontade e apanhou o portal para outra dimensão - a das trutas. Ficaram assim juntos os dois bordaleiros de serviço: o Paim na praia pequena e eu encostado a uma vetusta árvore.
O estado do tempo vestia-se sombrio e molhava-se às vezes mas pouco, salpicando as águas. Nós, entretidos no ritmo e na ânsia, nem dávamos conta do contexto admirável, onde o silêncio e a serenidade eram apenas perturbados por pequenas distracções, como se nada fosse. Ali, eu e o Paim sorríamos pela posse do passatempo.
Foi uma tarde servida a chá de camomila, interrompida no fim, pela arrumação do material e a contagem e amanho dos peixes. Depois, o jeep arrancou e durante a viagem fomos debatendo, políticas de direita e de esquerda, nessa anacrónica e simplista visão das coisas, até que chegámos aos nossos casulos citadinos, cinzentos, monótonos e vulgares, mas arrumados, brilhantes e funcionais, para repetir sempre o mesmo verbo, fingir naturalmente simpatia e darmo-nos conta do mundo da ficção.
Para a próxima semana, talvez na fundura de Meitriz, os escalos mostrarão que existem no líquido da nossa insistência.

2a Parte
O Pescador

Quem faz a agenda é sempre o VC. Os outros acomodam-se, respeitando, pois ele é o Pescador.
A gente pergunta sempre: - Quais são as ordens?
Este estatuto, de respeito e sobretudo de consideração, fez-se numa vida e durante toda ela. Pescador absoluto - experimentou todas as pescas, em todos os momentos, experimentou tudo.
Criou o mundo dele, o seu próprio culto, os seus prazeres. Ele inventou, adaptou, alterou, experimentou... Sempre a mudar de opinião rapidamente, de modo a adaptar-se e assim a poder actuar com um pragmatismo espantoso. Nada de facilidades ou de adiamentos ou de preguiças...
Se a pesca para mim é o cimento do resto, diria a poesia da minha vida, o meu calmante, para o VC a pesca é a origem e o fim, é tudo.
- Diga-me VC, para si está primeiro a família e depois a pesca. Certo?
- Não Borges, primeiro a pesca.
Na indefinição da madrugada, na abnegação dos dias que arrefecem enevoados, sob o suor a ferver ao sol, nos extremos da chuva, do vento e da neve e no clímax dos entardeceres quase nocturnos, o VC naturalmente pesca, pesca, pesca.
- Oh Borges, eu gosto é disto!
Este espírito atrai certamente os peixes, que o atendem: peixes grandes, peixes pequenos, peixes diferente. Muitos.
Tudo que referi são virtudes, excepcionalidades. O único vício de VC é gostar de ter amigos. Desdobra-se. Um dia destes irá ralhar com o Paim...

3a Parte
Rios

Há o princípio do rio e o fim do rio. E há também o meio do rio e os pedaços do rio.
Porém, um rio não é geométrico, não tem linhas rectas, nem círculos, nem triângulos. Um rio é...pura e simplesmente.
É uma grandeza que não percebemos, são mil conexões multiplicadas.
Porém, também é só água, para os que mandam e decidem, para os destruidores de mundos.
Os que não decidem nem mandam, não param de cantar e de dançar...onde está a música?
Espiunca, 16 de Abril de 2015
Luís M. Borges