"...a Primavera e os seus paroxismos que não duram muito..."
A Milita estava encerrada,
quando o olhar se lhe dirigiu. Foi pena, pois o café caducou após o bife de
sangue e sabor na Fernandinha.
No rio baixo, já se viam a
brilhar, escamas fugidias. O VC iludiu esta vontade e apanhou o portal para
outra dimensão - a das trutas. Ficaram assim juntos os dois bordaleiros de
serviço: o Paim na praia pequena e eu encostado a uma vetusta árvore.
O estado do tempo vestia-se
sombrio e molhava-se às vezes mas pouco, salpicando as águas. Nós, entretidos
no ritmo e na ânsia, nem dávamos conta do contexto admirável, onde o silêncio e
a serenidade eram apenas perturbados por pequenas distracções, como se nada fosse.
Ali, eu e o Paim sorríamos pela posse do passatempo.
Foi uma tarde servida a chá de
camomila, interrompida no fim, pela arrumação do material e a contagem e amanho
dos peixes. Depois, o jeep arrancou e durante a viagem fomos debatendo,
políticas de direita e de esquerda, nessa anacrónica e simplista visão das
coisas, até que chegámos aos nossos casulos citadinos, cinzentos, monótonos e
vulgares, mas arrumados, brilhantes e funcionais, para repetir sempre o mesmo
verbo, fingir naturalmente simpatia e darmo-nos conta do mundo da ficção.
Para a próxima semana, talvez
na fundura de Meitriz, os escalos mostrarão que existem no líquido da nossa
insistência.
2a Parte
O Pescador
Quem faz a agenda é sempre o
VC. Os outros acomodam-se, respeitando, pois ele é o Pescador.
A gente pergunta sempre: -
Quais são as ordens?
Este estatuto, de respeito e
sobretudo de consideração, fez-se numa vida e durante toda ela. Pescador
absoluto - experimentou todas as pescas, em todos os momentos, experimentou
tudo.
Criou o mundo dele, o seu
próprio culto, os seus prazeres. Ele inventou, adaptou, alterou,
experimentou... Sempre a mudar de opinião rapidamente, de modo a adaptar-se e
assim a poder actuar com um pragmatismo espantoso. Nada de facilidades ou de
adiamentos ou de preguiças...
Se a pesca para mim é o
cimento do resto, diria a poesia da minha vida, o meu calmante, para o VC a
pesca é a origem e o fim, é tudo.
- Diga-me VC, para si está
primeiro a família e depois a pesca. Certo?
- Não Borges, primeiro a
pesca.
Na indefinição da madrugada,
na abnegação dos dias que arrefecem enevoados, sob o suor a ferver ao sol, nos
extremos da chuva, do vento e da neve e no clímax dos entardeceres quase
nocturnos, o VC naturalmente pesca, pesca, pesca.
- Oh Borges, eu gosto é disto!
Este espírito atrai certamente
os peixes, que o atendem: peixes grandes, peixes pequenos, peixes diferente.
Muitos.
Tudo que referi são virtudes,
excepcionalidades. O único vício de VC é gostar de ter amigos. Desdobra-se. Um
dia destes irá ralhar com o Paim...
3a Parte
Rios
Há o princípio do rio e o fim
do rio. E há também o meio do rio e os pedaços do rio.
Porém, um rio não é
geométrico, não tem linhas rectas, nem círculos, nem triângulos. Um rio
é...pura e simplesmente.
É uma grandeza que não
percebemos, são mil conexões multiplicadas.
Porém, também é só água, para
os que mandam e decidem, para os destruidores de mundos.
Os que não decidem nem mandam,
não param de cantar e de dançar...onde está a música?
Espiunca, 16 de Abril de 2015
Luís M. Borges

