domingo, 12 de abril de 2015

37. Memórias ao longo dos rios



1.A caixa negra
 Lelo e Gonçalves
A linha deixou passar o comboio nas traseiras da casa. O meu sono não admitiu a barulheira.
Quando desci, vi um pijama a cambalear, a pigarrear e a queixar-se do frio. Era o Paim.
No outro quarto, dois cobertores acachapavam o Lelo e o Gonçalves, em desarmonia sonora. Um deles espreitou-me.
Rampa
Subi à cozinha, onde se tinham instalado aromas diferenciados, a caldo de cebola e a chá de cidreira. A fruta também entrou descuidada num prato. Gostos e conceitos diversos, curandices pessoais!
Com paragem obrigatória na gasolineira, o VC serviu-se de líquido propulsor para a embarcação, a alma do motor. Na falta daquela essência e daquele aparelho e daquele meio de transporte, o animal homem, só por si, teria de pegar mais tempo, dissipar mais energia física e contar com mais ineficácia, no que à pesca diz respeito.
Na rampa, os quatro empurraram o barco para o rio Minho, onde as nossas trutas prediletas iriam ter como destino, cruzarem-se connosco.
Trutas
Estávamos nós já afeitos ao nobre ofício de as cativar, num corrico lente entre o céu, a água e as margens arborizadas, a fazer trabalhar as amostras mais atraentes do universo, quando o Vaz de Carvalho recebe um telefonema da Capitania de Caminha.
- Estou! (ele está sempre – omnipresente, ubíquo - como Deus).
- Da Capitania? 
Vaz de Carvalho
- A caixa negra com a documentação do barco está na Capitania. Um gentil-homem apanhou-a na estrada.
Os olhos dos três estavam para estoirar e as palavras afundaram-se nas águas do rio e as mentes em turbilhão congeminavam explicações. Tudo serenou no retorno ao ofício da cana de pesca e porque o Paim nos entregou a caixa, levantada da Capitania, e explicou o improvável:
- Vaz de Carvalho esqueceu-se de arrumar a caixa negra, colocada em cima da proa. Quando arrancou, a dita resolveu ter vida e saltou para a estrada.
Luís Borges
 2.Pintura
Há dias negros? Há. Há homens vestidos de negro? Há. Conheces algum? Conheço: Vaz de Carvalho.
Foi, efetivamente, um dia negro para Vaz de Carvalho, sem jeito para apanhar as lindas neste segundo dia. Só fez um ponto, enquanto nós, os que vestem de outra cor, clareámos o dia com sete trutas.
Então, a vocação de Vaz de Carvalho para a poesia soou a fado. VC tinha apenas como publico dois espectadores, mas esmerou-se nos versos liceais e nas cantorias da Amália, a fim de disfarçar o fracasso. 
Nelson Mota
Mas, se culpas houvesse, a maré alta, foi que se predestinou a isso. Nem os lampreieiros se viam no rio, nem os anjos… O limo verde em suspensão limitava o acto predatório de profissionais e lúdicos. Este rio, cheio de ranho verde cobriu os olhos vivos das trutas. Esverdeou a água toda…
Assim, conjugando, dia negro, águas de verdete, claridade nos olhos do Nelson e do Borges, arca cheia de prata (nos dois dias 16 trutas), poente, tornaram este tempo passado à superfície, num mosaico de horas coloridas. 
 Pintura
A pesca é como uma pintura. 
Rio Minho, 17 e 18 de Março de 2015
Luís M. Borges