quinta-feira, 23 de março de 2017

43. Memórias ao longo dos rios



Rever musgo
 
1.O barracão
O barracão que o VC pretende comprar em Espiunca é uma preparação da sua “reforma” da Pesca. Não podendo passar sem ela e aproximando-se a passos largos a velhice aselha (o que acontece inexoravelmente a quem lá consegue chegar), está a preparar as condições para ser feliz, mesmo na impossibilidade de poder pescar.
Faz bem, muito bem mesmo.
O barraco (como VC lhe chama) é um velho, abandonado e degradado pardieiro, pertencente a uma portuguesa radicada no Brasil. É pequeno mas tem tamanho bastante para o pretendido. Precisa de obras. Contíguo, tem um espigueiro para enquadramento agrícola e histórico e possui ainda um terreno a rodear a espelunca, para eventualmente semear salsa e malagueta e implantar umas piscinazinha para os netos.


Fica mesmo no centro da aldeia, sendo servido por uma ruela onde passa bem o jipe, a meio caminho entre a Igreja e o Rio Paiva.
Resumindo: se o comprar (eu desejo sinceramente que o faça) o VC vai poder estar sossegado, rezar na igreja, conversar na Milita, comer nas Carvalhas e óbviamente pescar nas águas límpidas do rio e até ouvir os rouxinóis a cantarem à noitinha.
O projecto irá contemplar 2 quartos em cima (um para ele e outro para um amigo pescador) e em baixo uma sala com sofá-cama (para mais outro amigo),uma cozinha simples e um poliban. Espero que inclua no desenho uma lareira, pois o inverno por estes lados não brinca às casinhas.
2.Sangue frio
Entre o olhar das árvores e o passear do rio, escolhemos dois locais, de acordo com os melhores critérios. Pareceram-nos adequadas aquelas duas enseadas, onde a água descansava da correria.
Mas, as águas ainda andavam muito frias; a transparência era quase total; a profundidade na margem permitia abrigos nos raizeiros para os peixes – enfim, uma complexidade que lançava desafios. 

Por isso, não se viam ainda os peixelhos, embora nós os adivinhássemos por ali. Os bichinhos de sangue frio ainda se encontravam letárgicos, recolhidos ou inertes, pois o calor primaveril ainda não tinha tido tempo. Ele irá actuar, de certeza, dando-lhes energia e pondo-os a bulir, em devido tempo.
O Paim tinha ido laurear pelo passadiço. Queria pescar trutas.
Foi uma tarde serena, com uns bordalos esfomeados a levarem-nos os iscos e a ficarem presos.
3.Avô instituição

As encomendas são aceitáveis, se tiveram um grau de viabilidade, que permita cumprir o pedido. Ora VC tinha uns netos, netos estes que devoravam bordalos fritos e como um avô é uma instituição de satisfação de desejos, não podia apresentar-se nos festejos do Dia do Pai, sem um petisco para os pequenos. Disse:
- Preciso dos peixes todos.
Assim foi. Tudo somado, levou 3 doses.
4.Olhos que nos leem desejos
A Fernandinha gosta muito de nós. Tem um paladar para a comida igual ao nosso e uns olhos que nos leem desejos.
A vitela assada, o arroz de forno e o vinho verde branco, chegaram nas mãos e nos braços dela.

O amigo VC com cautela, por causa do colesterol,  eu com apetite por causa da dieta habitual de peixe  e o Paim na compensação da carência, comemos com os olhos, a boca e a barriga. Em suma, comemos bastante e bem nos soube.

Mister Sousa apareceu no fim, naquele seu jeito de simpatia. Alto, barbudo, cabelo comprido, mais pesado e falador, desejou-nos um bom dia de pesca e pediu-nos, que pescássemos bogas e lhas déssemos.
- É proibido pescar bogas. Estão no defeso.
O Sousa calou-se.
Assim arrumou VC o pedido. Realmente há que deixar funcionar normalmente a natureza. O homem não está acima dela – é sua parte integrante.
5.Sorrir ao sol
Já andava meio esquecido e até enferrujado. Há bastante tempo que não acompanhava VC pelas margens dos rios. Alguns do mais belos locais do rio sabiam de mim e eu deles, pois revi musgo em muros velhos a caírem, admirei novamente árvores como monarcas em tronos de altura, olhei demoradamente a minha água que corria e batia nas pedras brancas das cascalheiras, ouvi o melro a gritar- me de contente, aspirei com sofreguidão e prazer o ar puro e perfumado da montanha…

As canas de 4 metros bastaram, mais o anzol número 22, o estralho em 0,8 mm, uma bóia de 0,40 gr colorida e nada mais. Tão simples como sorrir ao sol.
Sra da Hora, 18 de Março de 2017
Luís M. Borges

quarta-feira, 16 de março de 2016

42. Memórias ao longo dos rios



No final do Inverno…gotas de chuva merecem ser lágrimas
 
1.Pequeno-almoço 



Naquele dia as nuvens corriam-nos à frente e a chuva batia com força. O frio sustentava este cenário, uma consistência da época.
Eu, o V.C. e o Paím dirigiamo-nos para o rio Paiva, destino Espiunca. Outra vez.
Por volta das 11h00, mais meia hora menos uns minutos, fizemos a nossa habitual entrada no restaurante do Sousa, sito nas Carvalhas. A Fernandina saudou-nos, naquele seu jeito de mulher formosa, a que já estávamos habituados.
- Pequeno-almoço…veja lá…três bifes bons e mal-passados.
Neste aspecto o nosso VC é sempre muito incisivo e claro.
Não tardou que uma enorme travessa pousasse devagar, devagarinho, na nossa mesa. Três bifes suculentos (grandes e altos) ponteados por azeitonas. Os olhos comeram primeiro…
Seguiu-se a mastigação, porque demorada num vagar apreciativo (de olhos fechados em concentração, de narinas frementes na busca do odor perfeito).
Igualmente foi poisado um jarro de vinho, nem meio cheio nem meio vazio, porque um jarro nunca chega assim…vai ficando é assim, rapidamente.
Já antes de nos sentarmos, habitava na mesa um cesto de pão estaladiço, ainda quente, convidativo…
- Ó Senhor de Matosinhos, dai-me apetite…que te agradeceremos esta dádiva.
Forrado o estômago, acomodada a satisfação, eis-nos à confiança nas rodas do jeep com destino a Espiunca.

2.Ritual



Mas, antes de chegarmos às margens do rio, haveríamos que cumprir um ritual antigo e arreigado: brindarmos com hidromel, no café da Milita. Três copitos, metade mel/metade bagaço, serviram de base à ritualização e ao pretexto.
Soltou-se mais a verve, subiram uns calores ao rosto, a boa disposição condensou-se.
E lá fomos, a dançar, com estas três evidências. Chegados ao rio, ainda cantávamos…

3.Os peixes que riem





No Inverno a pesca é fraca. Os peixes riem e riem. Entre a vontade de comerem um pequeno isco e a liberdade de o rejeitarem, eles riem. E riem porque decidem não tocar no isco. Assim, a pesca foi como um aperitivo, íamos petiscando de vez em quando uns peixitos.
A chuva…fazia-se caindo numa choradeira às vezes calma, outras vezes em soluços constantes. Para nós pescadores, as gotas de chuva são como lágrimas…
Nesta tarde curta, arrumado o dia na noite, despertado o frio nocturno, rejeitados os casacos molhados, assentámos no regressar. E arrumámos 48 peixelhos, 16 meus e 32 do Vaz.
O jeep ganhou vida e deixou-se guiar pelo dono.

4.E depois…





E depois, eram 19h00 coisa e tal, mais minuto menos pressa e sentindo em nós uma depressão incomodativa, decidimos visitar o célebre Ramirinho, em Rans.
Este restaurante, tipo taberna, vem mesmo a calhar, porque a rota de regresso passa-lhe ao lado.
Pois bem…o Ramirinho serve presunto e não só. Quando se entra, o colesterol sobe imediatamente, influenciado certamente pelos presuntos pendurados, pelos clientes encostados ao balcão, pelo falatório divertido nas mesas, pela frenética aviada e simpática das empregadas.
O vinho verde branco, as tiras de broa de milho, as azeitonas e a cebola com vinagre, preludiaram o excelente presunto espalmado em pratos brancos, que não tardou. Ainda caíram na mesa umas pataniscas. Contudo o presunto foi rei…




- Oh Ramirinho, quanto do teu presunto e do teu vinho, são gostos de Portugal.

Rans, 15 de Março de 2016
Luís M. Borges





segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

41. Memórias ao longo dos rios



“Mandriões no vale fértil” *


1º Mandrião


 2º Mandrião


3º Mandrião

 
Só havia corações frios em Espiunca. A água gelava, as árvores eram esqueletos, as pedras fulgiam, morriam as cinzas negras de uma fogueira, o castanho mirrado dos fetos desiludia, as uvas ainda penduradas nas videiras fizeram-se passas, havia rastos negros no chão do vale…

 Cinzas
Passas
Apesar de algum sol, os nossos corações (o meu, do Paim e do V. Carvalho), praticamente não aqueceram. A pesca foi de fisga, monótona e negativa.

 Árvores vergadas
Aliás, já sabíamos que iria ser assim. Contudo outros motivos anexos à pesca, fizeram-nos vir para esta espécie de vale fértil, que mais não é do que as margens do rio Paiva. Registe-se o magnífico bife servido pela Fernandinha, o hidromel maravilhoso da D. Milita, as interessantes conversas com os habitantes locais, a alteração das rotinas em Matosinhos, a viagem a rodar conversas em jeito de discussão.

 Corações frios
Foi assim, que passou tudo a ser diferente, mesmo que os corações frios dos peixes nos nossos cacifos, fossem muito poucos.

Rastos

Ainda me ocorreu, que talvez fosse melhor não haver Inverno, pois há demasiados corações pendurados das árvores nuas nesta estação do ano. Mas não…a mandriar tirei fotos, captei pormenores, pois de outro modo, não conseguiria sequer imaginá-los. 

 Fetos

Espiunca, 29 de Dezembro de 2015
Luís M. Borges

*“Mandriões no vale fértil”, título de um livro escrito por Albert Cossery. “É o romance em que este autor egípcio dedica ao seu tema predilecto – o ódio sarcástico ao trabalho – uma maior amplitude filosófica.”