Trutas, podeis vir...
Prece
Pois. O céu estava mesmo de um
cinzento carregado, a prometer chuva. Estava da cor da abelha!
Bem agasalhados, bem
prevenidos, pois o frio e a chuva chateiam e aborrecem, assisti deliciado à
oração dos pescadores consagrados, o Mota e o VC. Braços ao céu, na esperança
que o gesto resultasse.
- Trutas, podeis vir...
Não demoraram muito a
baixá-los, pois as canas é que pescavam.
Truta marisca (Borges)
O rio Minho corria na vazante,
com força moderada, numa cor fumada. Devagar, devagarinho, começou-se a
corricar às 11h30, alternando com lançamentos, em lugares próximos das margens,
que se insinuassem promissores.
O Mota ostentava material de
designação inglesa, última geração, estilo moderno e eficácia ultra garantida.
A desculpar-se pela sofisticação, referiu humildemente:
- Foi o meu genro. Prendas de
Natal.
A primeira truta a sair
escolheu a minha. Ena, trinta e cinco centímetros de prata pura, medidos e
confirmados. Estreia auspiciosa do Luisinho!
Material do Borges
A réplica não tardou a
verificar-se, sob o olhar atento de 25 “cormorans” e um falcão, pousados no
alto de uma árvore da margem. O falcão ainda sobrevoou o barco, num voo
carregado de indiferença.
As trutas pescadas pelos meus
dois amigos e companheiros, eram medianas. A pesca começava a entusiasmar. Uma
ou outra “fario”, pintalgada de vermelho, também se juntaram à festa.
O cabaz do Barco
O Paim tinha ficado em terra,
vimo-lo por causa do jipe, que se distinguia na margem portuguesa, agora limpa
de árvores e do mato cerrado de arbustos. Pescava ao fundo e com fé na amêijoa
como isco.
Entretanto, o organismo dos
três pescadores embarcados começava e exigir abastecimento. Saiu presunto, broa
de Lamego e vinho tinto de Cantanhede (uma zurrapa miserável). O VC preferiu a
lata de atum. Dizia ele:
- Estou de dieta!
Mota, Vaz de Carvalho e a truta
Após esta frugal refeição,
retomámos os trabalhos. E logo aquelas águas escuras me deram, mais uma vez, o
fruto desejado: uma bela truta marisca de 47 cm. O Mota, meia hora após, também
teve a graça de exigir àqueles fundos, outra truta quase igual.
Começava a dispensa do barco a
ficar bonita, com o fundo recheado com os tesouros capturados.
Depressa se ouviram as badaladas
das 18h00 e a pressa da recolha através da rampa. Rebocado o Pato Real para o
atrelado, abalámos para o Ratinho, onde se encomendaram 5 lampreias.
A pescaria do 2º dia
Foi aqui que me comecei a
sentir mal. Já no desembarque o coração batia descontrolado, sentia um
formigueiro estranho nas pernas, estava gelado e uma impressão de bloqueamento
no peito incomodava-me.
Abandonámos à pressa o Ratinho
e já no Centro de Saúde de Vila Nova de Cerveira, fui recambiado de ambulância
para o Hospital de Viana do Castelo. Pegaram logo em mim. Trataram-me com
desvelo até às 14h30 do dia seguinte, após as recomendações e avisos da
simpática e competente Dra Liliana.
O Paim esperava-me, pois tinha-se
prontificado a dar o seu apoio ao doentinho. Tenho a agradecer-lhe o favor.
O VC e o Mota fizeram pesca
durante todo o dia. Não adiantava perderem um magnífico dia de sol e mais umas
belas trutas, a esperarem por mim.
A contagem das trutas na
rampa, deu para este dia 12 exemplares. Faltou, pois claro, a cana do Luisinho,
para que a pescaria tivesse mais expressão, à semelhança do dia anterior com
15. Portanto, 28 trutas, com uma do Paim.
Jantámos na casa de VC sita no
Moledo. Um bifinho. Regressámos felizes e bem-dispostos às nossas casas.
Rio Minho, 12 e 13 de Março de 2015.
Luís M. Borges







