segunda-feira, 16 de março de 2015

35. Memórias ao longo dos rios



Magia?

Rio Paiva

Como é habitual nesta altura do ano, os rios não transbordam, nem vão à míngua de água. São é transparentes e gelados.
Os peixes, animais de sangue frio, reagem e resguardam-se em grupos compactos, quietos e alheios ao seu próprio mundo. Escondidos, torna-se difícil vê-los a nadar.
Nós, sabendo disto, mas não assumindo a mesma atitude dos peixinhos, tomamos sempre a iniciativa de os ir procurar.

Anzóis

 Assim, lá fomos duas vezes ao rio Paiva, ao sítio da Milita, a tentar que eles saíssem dos buracos e da sua letargia. Tarefa difícil e até anti-natural e talvez imoral. Coitadinhos dos bichinhos, a obedecerem à sua programação genética e aos seus hábitos salutares de vida. Pobres bordalos!
Mas nós (eu, o VC e o Paim) nunca conseguimos resistir àquilo a que chamo "o apelo da selva" (do rio, da predação, da comezaina, do passeio, do ar saudável, da boa disposição, da Fernandinha, da Milita e até dos piscos.

Bóia

 O dia 1 soube-nos a sacrifício, dado o pouco rendimento, que obtivemos. Já era de esperar! O Vaz de Carvalho é que tem magia, tendo conseguido chamar a si, com aquela água gélida, muita meticulosidade, invulgar insistência, aquela dosagem de paciência, e sabedoria (pois claro), uns 50 bordalos. E reparemos na diferença: eu 4 e o Paim 2 bordalos. Foi assim! E não nos consideramos uns nabos!
No dia 2, reincidimos no crime: incomodar com mais eficiência e com uns pozinhos daquela magia do Vaz, os magníficos bordalos. Atentámos, que uns dias antes tinha chovido moderadamente, pelo que as águas do rio tinham recebido um acrescento líquido renovado, o que certamente, talvez, empurrasse os peixitos para uma certa actividade.

Carreto e fio amarelo

 Pousámos no mesmo local, frente à Milita. O rio mantinha quase o mesmo perfil, pelo que decidi engodar na prainha. Com uma cana sensível e leve de 4 metros, 1,5 m de altura, uma bóia de meia grama, um anzol ultra fino n. 22, acoplado a um estralho com fio 0,08, sentei-me no pedregulho e ali insisti toda a tarde (das 12 às 18 horas).

Fio do estralho

 Sossegado, tinha a oportunidade de pensar, pelo que cheguei a algumas conclusões:
- É preciso insistir muito, repetindo vezes sem conta, a passagem do isco pelos mesmos locais do rio na corrente;
- É preciso saber engodar, de modo a que o perfume não se disperse e pelo contrário se concentre no mesmo local, onde estamos a pescar;
- É preciso colocar o morcão, a cobrir a haste do anzol, enfiado pelo ânus até à patilha (ver desenho).

Saber enfiar o morcão

 O VC pescava junto às margens a 1,5 / 2 metros de profundidade, com uma bóia de 0,03 gr. Portanto, mais fundo do que eu, mais leve do que eu, mais encostadinho às margens (locais de esconderijo dos bordalos) e engodando também nesses locais, onde a corrente era nula ou fraca. Portanto, VC era mais soft, mais sabido, mais experiente e mais esperto.
No final da pescaria, as diferenças eram notórias, fruto do tal cabedal de características, que cada um possuía:
- Paim: 6 bordalos
- Borges: 25 bordalos
- Vaz de Carvalho: 58 bordalos
 Bordalo
Daqui a um mês, quando surgirem as cheias e a temperatura amenizar as águas e entrar a Primavera, então sim. Nem é preciso saber pescar, pois os bichinhos põem-se loucos. Até dá para conter, a fim de não se exagerar na predação. Como convém! Mas, mesmo assim, o VC continuará a pescar o dobro. Magia?
Espiunca, 10 e 18 de Fevereiro de 2015
Luis M. Borges


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