Magia?
Rio Paiva
Como é habitual nesta altura
do ano, os rios não transbordam, nem vão à míngua de água. São é transparentes
e gelados.
Os peixes, animais de sangue
frio, reagem e resguardam-se em grupos compactos, quietos e alheios ao seu próprio
mundo. Escondidos, torna-se difícil vê-los a nadar.
Nós, sabendo disto, mas não
assumindo a mesma atitude dos peixinhos, tomamos sempre a iniciativa de os ir
procurar.
Anzóis
Assim, lá fomos duas vezes ao
rio Paiva, ao sítio da Milita, a tentar que eles saíssem dos buracos e da sua
letargia. Tarefa difícil e até anti-natural e talvez imoral. Coitadinhos dos
bichinhos, a obedecerem à sua programação genética e aos seus hábitos salutares
de vida. Pobres bordalos!
Mas nós (eu, o VC e o Paim)
nunca conseguimos resistir àquilo a que chamo "o apelo da selva" (do
rio, da predação, da comezaina, do passeio, do ar saudável, da boa disposição,
da Fernandinha, da Milita e até dos piscos.
Bóia
O dia 1 soube-nos a
sacrifício, dado o pouco rendimento, que obtivemos. Já era de esperar! O Vaz de
Carvalho é que tem magia, tendo conseguido chamar a si, com aquela água gélida,
muita meticulosidade, invulgar insistência, aquela dosagem de paciência, e
sabedoria (pois claro), uns 50 bordalos. E reparemos na diferença: eu 4 e o
Paim 2 bordalos. Foi assim! E não nos consideramos uns nabos!
No dia 2, reincidimos no
crime: incomodar com mais eficiência e com uns pozinhos daquela magia do Vaz,
os magníficos bordalos. Atentámos, que uns dias antes tinha chovido
moderadamente, pelo que as águas do rio tinham recebido um acrescento líquido
renovado, o que certamente, talvez, empurrasse os peixitos para uma certa
actividade.
Carreto e fio amarelo
Pousámos no mesmo local,
frente à Milita. O rio mantinha quase o mesmo perfil, pelo que decidi engodar
na prainha. Com uma cana sensível e leve de 4 metros, 1,5 m de altura, uma bóia
de meia grama, um anzol ultra fino n. 22, acoplado a um estralho com fio 0,08,
sentei-me no pedregulho e ali insisti toda a tarde (das 12 às 18 horas).
Fio do estralho
Sossegado, tinha a
oportunidade de pensar, pelo que cheguei a algumas conclusões:
- É preciso insistir muito,
repetindo vezes sem conta, a passagem do isco pelos mesmos locais do rio na
corrente;
- É preciso saber engodar, de
modo a que o perfume não se disperse e pelo contrário se concentre no mesmo
local, onde estamos a pescar;
- É preciso colocar o morcão,
a cobrir a haste do anzol, enfiado pelo ânus até à patilha (ver desenho).
Saber enfiar o morcão
O VC pescava junto às margens
a 1,5 / 2 metros de profundidade, com uma bóia de 0,03 gr. Portanto, mais fundo
do que eu, mais leve do que eu, mais encostadinho às margens (locais de esconderijo
dos bordalos) e engodando também nesses locais, onde a corrente era nula ou
fraca. Portanto, VC era mais soft, mais sabido, mais experiente e mais esperto.
No final da pescaria, as
diferenças eram notórias, fruto do tal cabedal de características, que cada um
possuía:
- Paim: 6 bordalos
- Borges: 25 bordalos
- Vaz de Carvalho: 58 bordalos
Bordalo
Daqui a um mês, quando
surgirem as cheias e a temperatura amenizar as águas e entrar a Primavera, então
sim. Nem é preciso saber pescar, pois os bichinhos põem-se loucos. Até dá para
conter, a fim de não se exagerar na predação. Como convém! Mas, mesmo assim, o
VC continuará a pescar o dobro. Magia?
Espiunca, 10 e 18 de Fevereiro de 2015
Luis M. Borges





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