segunda-feira, 16 de março de 2015

36. Memórias ao longo dos rios



Trutas, podeis vir...

Prece

 Pois. O céu estava mesmo de um cinzento carregado, a prometer chuva. Estava da cor da abelha!
Bem agasalhados, bem prevenidos, pois o frio e a chuva chateiam e aborrecem, assisti deliciado à oração dos pescadores consagrados, o Mota e o VC. Braços ao céu, na esperança que o gesto resultasse.
- Trutas, podeis vir...
Não demoraram muito a baixá-los, pois as canas é que pescavam.

Truta marisca (Borges)

 O rio Minho corria na vazante, com força moderada, numa cor fumada. Devagar, devagarinho, começou-se a corricar às 11h30, alternando com lançamentos, em lugares próximos das margens, que se insinuassem promissores.
O Mota ostentava material de designação inglesa, última geração, estilo moderno e eficácia ultra garantida. A desculpar-se pela sofisticação, referiu humildemente:
- Foi o meu genro. Prendas de Natal.
A primeira truta a sair escolheu a minha. Ena, trinta e cinco centímetros de prata pura, medidos e confirmados. Estreia auspiciosa do Luisinho!

Material do Borges

A réplica não tardou a verificar-se, sob o olhar atento de 25 “cormorans” e um falcão, pousados no alto de uma árvore da margem. O falcão ainda sobrevoou o barco, num voo carregado de indiferença.
As trutas pescadas pelos meus dois amigos e companheiros, eram medianas. A pesca começava a entusiasmar. Uma ou outra “fario”, pintalgada de vermelho, também se juntaram à festa.

O cabaz do Barco

 O Paim tinha ficado em terra, vimo-lo por causa do jipe, que se distinguia na margem portuguesa, agora limpa de árvores e do mato cerrado de arbustos. Pescava ao fundo e com fé na amêijoa como isco.
Entretanto, o organismo dos três pescadores embarcados começava e exigir abastecimento. Saiu presunto, broa de Lamego e vinho tinto de Cantanhede (uma zurrapa miserável). O VC preferiu a lata de atum. Dizia ele:
- Estou de dieta!

Mota, Vaz de Carvalho e a truta

 Após esta frugal refeição, retomámos os trabalhos. E logo aquelas águas escuras me deram, mais uma vez, o fruto desejado: uma bela truta marisca de 47 cm. O Mota, meia hora após, também teve a graça de exigir àqueles fundos, outra truta quase igual.
Começava a dispensa do barco a ficar bonita, com o fundo recheado com os tesouros capturados.
Depressa se ouviram as badaladas das 18h00 e a pressa da recolha através da rampa. Rebocado o Pato Real para o atrelado, abalámos para o Ratinho, onde se encomendaram 5 lampreias.
 A pescaria do 2º dia
Foi aqui que me comecei a sentir mal. Já no desembarque o coração batia descontrolado, sentia um formigueiro estranho nas pernas, estava gelado e uma impressão de bloqueamento no peito incomodava-me.
Abandonámos à pressa o Ratinho e já no Centro de Saúde de Vila Nova de Cerveira, fui recambiado de ambulância para o Hospital de Viana do Castelo. Pegaram logo em mim. Trataram-me com desvelo até às 14h30 do dia seguinte, após as recomendações e avisos da simpática e competente Dra Liliana.
O Paim esperava-me, pois tinha-se prontificado a dar o seu apoio ao doentinho. Tenho a agradecer-lhe o favor.
O VC e o Mota fizeram pesca durante todo o dia. Não adiantava perderem um magnífico dia de sol e mais umas belas trutas, a esperarem por mim. 

A contagem das trutas na rampa, deu para este dia 12 exemplares. Faltou, pois claro, a cana do Luisinho, para que a pescaria tivesse mais expressão, à semelhança do dia anterior com 15. Portanto, 28 trutas, com uma do Paim.

Jantámos na casa de VC sita no Moledo. Um bifinho. Regressámos felizes e bem-dispostos às nossas casas.

Rio Minho, 12 e 13 de Março de 2015.
Luís M. Borges


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