Sob o signo do carneiro
A pesca foi no lugar do costume: Espiunca, frente à Milita.
Já lá ia um tempão, que não pegava na cana ultraleve e pescava
bordalos no rio Paiva. Uns bons dois meses, por aí. Demasiado tempo, pelas saudades
de toda a envolvência. E por outra razão, a ver com a feição de vida desta espécie
de peixes, pois quando o Inverno se fizesse áspero, eles acoitar-se-iam nos
buracos e nos raizeiros, em letargia prolongada. Assim, urgia aproveitar estes
breves dias de canícula e lá fomos de novo à terra do mel e ao rio, que corria
no nosso pensamento.
Calendarizámos dois dias para o efeito.
Os procedimentos encontravam-se normalizados: começar pela utilização
de uma montagem ultrafina (cana directa de 4,5 m; bóia de 0,02 gr; estralho com
fio 0,08 e anzol nº 22), aplicar o engodo dos pintos e iscar com o irrequieto morcão.
Foi só escolher o local mais propício, tendo em vista dois pormenores: espaço
para manejar bem a cana (as árvores abundavam por ali e ajudavam a desgraçar as
montagens) e sensibilidade para intuir onde se encontravam os buliçosos
bordalos.
O rio corria transparente e o dia pasmava-se de um ameno outonal,
perfeitamente adequado para se poder exercer uma pesca calma e agradável. Assim,
decidi começar pelo cais das canoas, um lugar aberto com prainha acessível e
profundidade descendente até 1,5 metros de profundidade. Com aquele pequeno
nervosismo próprio de quem recomeça, iniciei o confronto. Não tardou: os
pequenos e velozes bordalos começaram a dar sinal de vida e rapidamente o
cacifo deixou cobrir o seu fundo. Uma hora depois (12h00) os pequenotes
desistiram de continuar a ser massacrados.
Desci o rio, à procura de novo local, pelo que escolhi uma corrente
suave, contraposta a umas rochas ornadas de três árvores, uma ilhota no meio do
rio (chegava-se lá patinhando por entre poças de água). Mudei o sistema, pois
aqui a profundidade e a corrente eram maiores, para além de ser possível
aparecerem barbos e bogas grandes: bóia de 1 gr e estralho com 0,10 de
espessura.
Aqui rabalhei até às 16h30, pescando a um ritmo exigente. Os bordalos
atingiam os tamanhos máximos (12 cm) e de vez em quando lá se afirmavam uma
boga e um barbo. Nas minhas velhas costas, o cacifo já fazia mossa, de pesado
que estava, pelo que de novo com o abrandamento das investidas escamais, vi-me
obrigado a efectuar uma retirada prudente, poisando-me um pouco mais abaixo,
onde os altos amieiros me proporcionaram alguns espaços exercíveis. Os bordalos
acederam, embora com mais cautela.
Foi-se esvaindo o dia e regressei ao primeiro local na prainha, a fim
de terminar junto ao carro. Eram umas 17h30. Como todo o bom pescador sabe, o
anoitecer é propício. Estava convicto, que com uma engodagem regular, as bogas,
os barbos e obviamente os bordalos de “posta”, se fariam facilmente ao isco.
Assim aconteceu. Esgotei a minha vista a tentar ver a bóia a afundar naquele
fusco de luminosidade. Valeu um candeeiro público, que me proporcionou ir
vislumbrando a antena branca da bóia. Foi mesmo até entrar o nocturno absoluto.
Entretanto, o VC pescava mais acima, quase ao pé de mim. Desgastava o
fracasso. Já tinha chegado há uma hora. Quis tentar só as bogas, tendo
esmiuçado o rio em todas as cascalheiras possíveis, acima da ponte de Espiunca,
durante todo o dia. As bandidas esquivaram-se à sua notável mestria, o que é
verdade, pois reconheço-o como o mais aferroado dos pescadores. Disse-me, que
tinha “acaçado” meia dúzia de bogas de média dimensão. A princípio não
acreditei, mas pelas explicações, pelo tom, pela desilusão, acabei por me
convencer.
- Vaz de Carvalho, quer este candeeiro público? É luz. Pego nele e
planto-o aí ao pé de si…
Às 20h00, o Sousa, do Restaurante das Carvalhas, oferecia-nos a sua
mesa familiar. Os cinco (com esposa e filha), consumimos os peixinhos, que a
Fatima tinha fritado, acompanhados com arroz de feijão branco. A Fernandinha
velava por nós em apoio contínuo, sempre solícita.
Regressámos a conversar vulgaridades até Matosinhos.
Na segunda jornada de pesca, já o prazer do prego no prato
ressuscitava novamente velhas lembranças de sabores impossíveis. Eram 11 horas
e o paladar nem se lembrou das badaladas. Porquê a soma de tão extremados
momentos?
O VC solidificou, a mastigar devagar e eu desfiz-me em devaneios. O
Paim, enrolava cigarros noutra mesa e beberricava o seu bagaço, completamente
alheio ao perfume do prego e aos nossos devaneios. Já se tinha acopletado com
uma patanisca de bacalhau…
O café e sobretudo o hidromel foram soberanos na Milita. Para
desgastar!
Finalmente, pousámos os pés à beira do rio, à procura dos escaminhas.
O VC queria tentar de novo as bogas.
Desta vez, estranhamente, os bordalos deram à barbatana. Hoje não estavam tão inteligentes como há dois dias. Rarearam no anzol. Porquê? Foram substituídos pelas bogas e pelos barbos. As bogas grandes caíram, sobretudo ao anoitecer. É típico destas gajas. Não se dão durante o dia! E o Vaz de Carvalho aproveitou.
Os três equilibrámos as nossas contas piscícolas, mais ou menos.
Saímos do rio noite cerrada, sem candeeiros, e fomos, obviamente,
pousar de novo no Restaurante da Carvalha, a cumprir uma demanda: o carneiro
assado no forno esperáva-nos. De novo, sentimos o perfume do apetite, a ânsia
da degustação, o desejo dos sabores. O arroz de forno subornou-nos e a perna do
anho ocupou-nos todos os sentidos. Dissemos em alta voz, quase em uníssono:
- Que ninguém nos ouse perturbar…
De pesca, estes três insaciáveis pescadores não falaram. Nem pio!
Carvalhas, 30 de Outubro de
2014
Luís M. Borges
