quarta-feira, 16 de março de 2016

42. Memórias ao longo dos rios



No final do Inverno…gotas de chuva merecem ser lágrimas
 
1.Pequeno-almoço 



Naquele dia as nuvens corriam-nos à frente e a chuva batia com força. O frio sustentava este cenário, uma consistência da época.
Eu, o V.C. e o Paím dirigiamo-nos para o rio Paiva, destino Espiunca. Outra vez.
Por volta das 11h00, mais meia hora menos uns minutos, fizemos a nossa habitual entrada no restaurante do Sousa, sito nas Carvalhas. A Fernandina saudou-nos, naquele seu jeito de mulher formosa, a que já estávamos habituados.
- Pequeno-almoço…veja lá…três bifes bons e mal-passados.
Neste aspecto o nosso VC é sempre muito incisivo e claro.
Não tardou que uma enorme travessa pousasse devagar, devagarinho, na nossa mesa. Três bifes suculentos (grandes e altos) ponteados por azeitonas. Os olhos comeram primeiro…
Seguiu-se a mastigação, porque demorada num vagar apreciativo (de olhos fechados em concentração, de narinas frementes na busca do odor perfeito).
Igualmente foi poisado um jarro de vinho, nem meio cheio nem meio vazio, porque um jarro nunca chega assim…vai ficando é assim, rapidamente.
Já antes de nos sentarmos, habitava na mesa um cesto de pão estaladiço, ainda quente, convidativo…
- Ó Senhor de Matosinhos, dai-me apetite…que te agradeceremos esta dádiva.
Forrado o estômago, acomodada a satisfação, eis-nos à confiança nas rodas do jeep com destino a Espiunca.

2.Ritual



Mas, antes de chegarmos às margens do rio, haveríamos que cumprir um ritual antigo e arreigado: brindarmos com hidromel, no café da Milita. Três copitos, metade mel/metade bagaço, serviram de base à ritualização e ao pretexto.
Soltou-se mais a verve, subiram uns calores ao rosto, a boa disposição condensou-se.
E lá fomos, a dançar, com estas três evidências. Chegados ao rio, ainda cantávamos…

3.Os peixes que riem





No Inverno a pesca é fraca. Os peixes riem e riem. Entre a vontade de comerem um pequeno isco e a liberdade de o rejeitarem, eles riem. E riem porque decidem não tocar no isco. Assim, a pesca foi como um aperitivo, íamos petiscando de vez em quando uns peixitos.
A chuva…fazia-se caindo numa choradeira às vezes calma, outras vezes em soluços constantes. Para nós pescadores, as gotas de chuva são como lágrimas…
Nesta tarde curta, arrumado o dia na noite, despertado o frio nocturno, rejeitados os casacos molhados, assentámos no regressar. E arrumámos 48 peixelhos, 16 meus e 32 do Vaz.
O jeep ganhou vida e deixou-se guiar pelo dono.

4.E depois…





E depois, eram 19h00 coisa e tal, mais minuto menos pressa e sentindo em nós uma depressão incomodativa, decidimos visitar o célebre Ramirinho, em Rans.
Este restaurante, tipo taberna, vem mesmo a calhar, porque a rota de regresso passa-lhe ao lado.
Pois bem…o Ramirinho serve presunto e não só. Quando se entra, o colesterol sobe imediatamente, influenciado certamente pelos presuntos pendurados, pelos clientes encostados ao balcão, pelo falatório divertido nas mesas, pela frenética aviada e simpática das empregadas.
O vinho verde branco, as tiras de broa de milho, as azeitonas e a cebola com vinagre, preludiaram o excelente presunto espalmado em pratos brancos, que não tardou. Ainda caíram na mesa umas pataniscas. Contudo o presunto foi rei…




- Oh Ramirinho, quanto do teu presunto e do teu vinho, são gostos de Portugal.

Rans, 15 de Março de 2016
Luís M. Borges





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