terça-feira, 17 de novembro de 2015

40. Memórias ao longo dos rios



“O outono é outra primavera, cada folha uma flor” *

 
O rio Paiva encanta-se com o Outono. Toma-lhe as cores, os sons, os odores.
As águas recolhem as folhas e as margens mostram as raízes das árvores como cobras negras entrelaçadas.


Os cachos de uvas pendentes e secos das videiras, parecem enforcados, num último e derradeiro esforço de afrontamento.


As grandes árvores, mesmo de caules grossos e fortemente agarradas ao solo, já temem as grandes enxurradas.
Os peixes afanam-se na busca de alimentação, de modo a ganharem reservas, que lhes permitam sobreviver ao Inverno de águas geladas e fortes correntes. Só lhes restarão a letargia nos buracos, até que a próxima Primavera lhes propicie melhores condições de vida. Ser peixe é lixado!
Serenamente, como se nada se tivesse que fazer, neste ambiente outonal ioga, a pesca começou. Com esses pequenos, abundantes, irrequietos e simpáticos peixes, a que chamamos Bordalos.
O Vaz de Carvalho, pescava com toda uma artilharia de pormenores; eu, um pouco menos armado ia insistindo e o Paim a fumar, de mãos nos bolsos, a reter imagens amarelas e provavelmente a perguntar-se onde estariam os barbos. Havia o retrato de fundo, que era o do troço do rio Paiva, junto à ponte de Espiunca.


De vez em quando a chuva vinha ter connosco. Nós tínhamos capas e guarda-chuvas, mas a natureza em redor não precisava destes subterfúgios. Deixava-se envolver, deixava-se amolecer, relaxada, como uma mulher depois do amor.
Quando a luz se foi tornando frouxa, todos tínhamos pescado um número consistente de bordalos, bogas e escalos. Pescámos a pisar flores, pescámos a inspirar aromas esquecidos.


No segundo dia de pesca, o mundo era água a desabar. O “casulo” do milho absorvia, mas as pedras escorregadias da calçada brilhavam; as margens emaranhadas do rio dobravam-se em reverência; os fetos de mais verde, conspiravam com a abundância; as folhas das árvores sacudiam-se, caíam, reforçando a desaba; o céu, esse, de tão cinzentão era um mãos-rotas; o ar acomodava-se em humidade.


É sempre um deslumbramento esta natureza molhada. A nível de impressões, nada se lhe iguala, talvez pela conjugação do colorido outonal, com o brilho que a água da chuva lhe confere.


Deu mais peixe desta vez. O rio foi crescendo lentamente, as águas começaram a turvar. Os peixes foram-se chegando às margens. Nós, estávamos lá.
Despedi-me do chão carregado de folhas amarelas e vermelhas, que tinham caído com o peso da água da chuva. Tinha ali um canteiro depois da rega. Cada folha era uma flor.

Espiunca, 26 de Outubro e 6 de Novembro
Luís M. Borges

Bibliografia: * Albert Camus

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