Perto dos rios: restos de nós próprios
A conversa no restaurante da D. Emília em Mondim de Basto, com o Tó e
o Bernardo a comerem trutas fritas, deu para acertar o convívio. Seria em
Cerva, no dia 30 de Junho, na casa do Tó. Juntar-se-iam os amigos dos dois
primos, para contarem histórias, reavaliarem as respectivas velhices,
confrontarem atitudes e opiniões, apreciarem vinhos e pecarem de gula. Os
escalos de escabeche à moda de Vaz de Carvalho e a cabidela à Tó, seriam brasões
à mesa da realeza. Os convivas seriam gente nobre, em estatuto, nos afectos, em
simpatia, em naturalidade e na humildade.
A mansão do Tó, recanto pleno de originalidade, com lago e peixes,
nascente a brotar, canaviais da índia, patos, gansos, meandros de entradas e
saídas, luzes a despontarem nas folhagens, mesas e cadeiras de pedra, hortas a
ladearem e o insinuante cão Sorna, acolhia com generosidade. A velha casa,
reestruturada com respeito, sobranceava e centralizava amiúde o prazer dos
homens e das mulheres.
Mas, tudo se alterou, dada a quantidade de amigos e a sobrecarga de
trabalhos. A casa do Tó foi substituída pela casa de Quintela. Assim, uma logística
tão pesada meteu lista comprida, elaborada à noite com o Adérito.
Mas, o Vaz de Carvalho tinha o bichinho de ir pescar, mesmo
sobrecarregado de encomendas e de pormenores, pelo que não resistiu a bater um
troço do Poio à pluma na quinta-feira. Foi até à Ponte de Cabriz. Mas, na
sexta-feira não se atreveu e livrou-se da tentação. Haveria 35 amigos, que
tinham prometido estar presentes no sábado, a fim de partilharem.
Pela manhã já as festas de S.Pedro em Cerva se animavam com foguetório
e na casa, a cozinha começou a ordenar-se em petiscos e a cabidela confiava-se
apetitosa às velhas paredes, fazendo-as reviver. Nas panelas, VC, no seu breve
prazer liderante e solitário, remexia os pedaços de frango. Deu a provar, a
solicitar aprovação. E lá saiu boa cabidela!
A seguir o Bernardo soube tocar o interesse de todos com os seus
mexilhões e o Vítor de Covas, mais o seu presunto cozido e as pataniscas de
milho da Mãe de VC e as bolas de carne e o peixe de rio de escabeche e os doces
e os vinhos diversos, para todos os gostos...
A cozinheira desdobrava-se e sorria, mexida e de olhos azuis atentos.
VC quis todos na sala de jantar, onde rangiam as tábuas do soalho e as
cadeiras de madeira, desabituadas de tanto estrépito. Comeu-se, bebeu-se,
elogiou-se, narrou-se, riu-se…
Às seis da tarde acabou o tempo de sobra. As despedidas iam desfiando
parabéns e promessas para novo encontro de pescarias e de caçadas, até que não
pudessem mais, a maior parte a viverem já dos restos deles próprios.
Vaz de Carvalho colmatou com um brinde de galhofa e citou:
- “Exijo agora silêncio e um copo de tinto” (Golgona Anghel)
Cerva, 30 de Junho de 2012
Luís M. Borges

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