Rio Rabagão
Era um rio de feições lindas, altaneiro e digno. Era, digo bem…
Engolido literalmente pela Barragem da Venda Nova, raramente o Rabagão se
mostra tal como foi há dezenas de anos, excepto em períodos de seca prolongada,
como agora acontece.
No sítio onde fomos pescar trutas, perto de Vila da Ponte, a falta de
chuva fez descer consideravelmente o nível das águas da barragem, deixando ver
o rio a correr de mansinho e a ouvir a água a cantar nas cascalheiras.
Gostei de admirar o que faz uma barragem a um rio e às margens,
submersas numa imensidão de água. As pedras ficam diferentes, pálidas, lavadas,
como que afogadas; a terra esquálida esboroa-se, solta-se finíssima como cinza;
a vegetação rasteira só medra debilmente, porque se esqueceu de respirar; há bases
de troncos de árvores, grossos tocos petrificados, negros de tanto resistirem;
as margens são lombadas arqueadas e quase lisas, bojos estéreis.
Nesta tarde de pesca às trutas, a minha paciência fez-se uma longa
espera. Sete horas de insistência, à espera de um sinal. A monotonia pegou-se
ao desconforto, que procurei iludir: pernas esticadas, braços distendidos,
cabeça encostada, pensamento livre. Aquela enorme fraga lisa deu-me ao menos
para lavar a ânsia de pescar uma truta. Mas nunca me tirou a esperança…Com os
olhos postos no rio, acabei por me sentir integrado!
O Vaz de Carvalho pescou três trutas. Assisti invejoso, ofendido, surpreso,
à rebeldia de cada truta capturada. Saltavam a tentar libertar-se, investiam em
velocidade para o fundo do rio, procuravam tenazmente os buracos de refúgio. A
habilidade e experiência de Vaz de Carvalho acabavam por anular aquelas
estratégias de sobrevivência.
Ficámo-nos pelas três trutas!
Barragem da Venda Nova/Rio Rabagão, 10 de
Setembro de 2012.
Luís M. Borges

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