domingo, 10 de agosto de 2014

23. Memórias ao longo dos rios: Rio Rabagão



Rio Rabagão
 
Era um rio de feições lindas, altaneiro e digno. Era, digo bem… Engolido literalmente pela Barragem da Venda Nova, raramente o Rabagão se mostra tal como foi há dezenas de anos, excepto em períodos de seca prolongada, como agora acontece.
No sítio onde fomos pescar trutas, perto de Vila da Ponte, a falta de chuva fez descer consideravelmente o nível das águas da barragem, deixando ver o rio a correr de mansinho e a ouvir a água a cantar nas cascalheiras.
Gostei de admirar o que faz uma barragem a um rio e às margens, submersas numa imensidão de água. As pedras ficam diferentes, pálidas, lavadas, como que afogadas; a terra esquálida esboroa-se, solta-se finíssima como cinza; a vegetação rasteira só medra debilmente, porque se esqueceu de respirar; há bases de troncos de árvores, grossos tocos petrificados, negros de tanto resistirem; as margens são lombadas arqueadas e quase lisas, bojos estéreis.
Nesta tarde de pesca às trutas, a minha paciência fez-se uma longa espera. Sete horas de insistência, à espera de um sinal. A monotonia pegou-se ao desconforto, que procurei iludir: pernas esticadas, braços distendidos, cabeça encostada, pensamento livre. Aquela enorme fraga lisa deu-me ao menos para lavar a ânsia de pescar uma truta. Mas nunca me tirou a esperança…Com os olhos postos no rio, acabei por me sentir integrado!
O Vaz de Carvalho pescou três trutas. Assisti invejoso, ofendido, surpreso, à rebeldia de cada truta capturada. Saltavam a tentar libertar-se, investiam em velocidade para o fundo do rio, procuravam tenazmente os buracos de refúgio. A habilidade e experiência de Vaz de Carvalho acabavam por anular aquelas estratégias de sobrevivência.
Ficámo-nos pelas três trutas!
Barragem da Venda Nova/Rio Rabagão, 10 de Setembro de 2012.
Luís M. Borges

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