domingo, 10 de agosto de 2014

26. Memórias ao longo dos rios: Lia



Perto dos rios: as esmeraldas são flores?

Por entre casario escuro, mas arrumado, diria esbelto, quase insólito, fui admirando o passado. Uma casa obrigava a ler 1846; outra mostrava janelas desconjuntas e na porta de uma casa redonda havia cravos num pote de ferro preto, que não eram do pote; a Casa do Povo, que também não era do povo, estragava com branco o negro luminoso das casas; mais abaixo paredes inclinadas em socalcos de xisto justapostos, os tectos de lousa acamada a cobrirem do céu e as curvas de uma estrada vaidosa dos seus colares de azeviche. Era Ermelo, antiga sede de Concelho, agora do Parque Natural do Alvão.
Fomos almoçar ao restaurante do Armindo, curiosamente denominado Sabores do Alvão. E que sabores, digam lá! Cheirava a cabrito assado no forno de lenha, a que se misturava o aroma do arroz de cabidela. Como entrada, aquele salpicão tinha personalidade, negro por fora, a lembrar o casario, mas suavemente beije por dentro e de sabor único, a lembrar a suavidade da terra. O Armindo dizia que aquela qualidade era por causa do frio… e que dava trabalho! O vinho verde branco de Mouquim, refrescava a boca e sabia a delicadeza.
Foi um almoço internacional, com um casal de russos sentados à nossa mesa, ele trombudo e importante, ela sorridente e amedrontada. Destoaram imenso…
Depois, a LIA. Não sabia que havia flores assim em Ermelo…

LIA
Esguia brancura
De pele quase nua.
Alta, loira luz,
No andar que me conduz.

Era meio-dia.
Pelo ar o vento sorria.
Eu senti, observei
O sol alto e olhei.

Chamava-se Lia.
Continuava e sorria.
Confesso que hesitei.
Mas, porque acenei?

Obs: Escrever poesia sem régua nem esquadro. Às vezes, dá-me...
Ermelo, 12 de Julho de 2012
Luís M. Borges


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