domingo, 10 de agosto de 2014

17. Memórias ao longo dos rios: Rio Paivô e morangos



Morangos silvestres

Para pescar no rio Paivô vai-se a Arouca. Segue-se a escolha do sítio para iniciar a pesca: Ponte de Telhe, uma das mais singulares aldeias que conheço. Fabulosa a configuração. Com aquele abraço do Paivô, parece uma mão em concha a proteger… à noite lembra-me um transatlântico em fundo de mar escuro, de dia um presépio imaginado sem limites. Só de admirar fico em jeito de acabar de ler um conto de fadas!
Mas as revelações ultrapassam-nos. Ficamos até com uma atitude de deslumbramento. Quando iniciámos a exploração do rio, a pescar com fome de peixes, encontrámos lances de bela feição, com arvoredo fechado a bordar as margens. Impossível lançar nestes pedaços de rio. Encontrámos prainhas de brincar, onde os peixes se divertiam às escondidinhas, desaparecendo nos poços mais fundos. Encontrámos descaídas ruidosas, brancas de espuma, onde se compunham novelos de água, a rodarem constantemente. Encontrámos ainda cascalheiras rápidas, a polirem com insistência seixos e seixos multicores. Encontrámos a ponte e olhámos para cima, por baixo dela, desvendando-lhe as intimidades.
Na aldeia de Ponte de Telhe a vida costumeira, feita de velhas rotinas: carros a acrescentarem ruído; cães nervosos, desconfiados; idosos à espera, resignados; raparigaças com olhos de pardal, curiosas; lavradores pachorrentos, a avaliarem; crianças teimosas, a embirrarem; mães a ralharem, sorridentes…
O Vaz de Carvalho pescou quatro lindas trutas. Eu, apanhei deslumbramentos!
Pela tardinha, ele deliciava-se a comer morangos silvestres, que apanhava na borda de um trilho. Não me fiz rogado – morangos silvestres, muito pequenos, muito vermelhos, muito perfumados, muito agradáveis. Um terminar morangueiro, carregado de autenticidade, a lembrar o que temos perdido e como nos enganam. Em Ponte de Telhe, quem me dera estar por lá, tempos a fio…
Ponte de Telhe, 11 de Junho de 2012
Luís M. Borges

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