Morangos silvestres
Para pescar no rio Paivô vai-se a Arouca. Segue-se a escolha do sítio
para iniciar a pesca: Ponte de Telhe, uma das mais singulares aldeias que
conheço. Fabulosa a configuração. Com aquele abraço do Paivô, parece uma mão em
concha a proteger… à noite lembra-me um transatlântico em fundo de mar escuro,
de dia um presépio imaginado sem limites. Só de admirar fico em jeito de acabar
de ler um conto de fadas!
Mas as revelações ultrapassam-nos. Ficamos até com uma atitude de
deslumbramento. Quando iniciámos a exploração do rio, a pescar com fome de
peixes, encontrámos lances de bela feição, com arvoredo fechado a bordar as
margens. Impossível lançar nestes pedaços de rio. Encontrámos prainhas de
brincar, onde os peixes se divertiam às escondidinhas, desaparecendo nos poços
mais fundos. Encontrámos descaídas ruidosas, brancas de espuma, onde se
compunham novelos de água, a rodarem constantemente. Encontrámos ainda
cascalheiras rápidas, a polirem com insistência seixos e seixos multicores.
Encontrámos a ponte e olhámos para cima, por baixo dela, desvendando-lhe as
intimidades.
Na aldeia de Ponte de Telhe a vida costumeira, feita de velhas rotinas:
carros a acrescentarem ruído; cães nervosos, desconfiados; idosos à espera,
resignados; raparigaças com olhos de pardal, curiosas; lavradores pachorrentos,
a avaliarem; crianças teimosas, a embirrarem; mães a ralharem, sorridentes…
O Vaz de Carvalho pescou quatro lindas trutas. Eu, apanhei
deslumbramentos!
Pela tardinha, ele deliciava-se a comer morangos silvestres, que
apanhava na borda de um trilho. Não me fiz rogado – morangos silvestres, muito
pequenos, muito vermelhos, muito perfumados, muito agradáveis. Um terminar
morangueiro, carregado de autenticidade, a lembrar o que temos perdido e como
nos enganam. Em Ponte de Telhe, quem me dera estar por lá, tempos a fio…
Ponte de Telhe, 11 de Junho de
2012
Luís M. Borges

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