quarta-feira, 13 de agosto de 2014

28. Memórias ao longo dos rios: Achigãs no Douro


Instantes no tempo: rio Douro
Achigãs

Detivemo-nos na Adega Albufeira e servimo-nos de umas sardinhas assadas, acabádas pelas 15 horas. Depois, descemos sob a ponte do Marco, empurrando o barco para as águas do Douro onde nos acomodámos no pequeno espaço flutuante, enfrentando um sol duro de suportar.
Três maduros, homens pescadores pois claro, a efetuarem lançamentos precisos a centímetros de troncos meio submersos e de pedras irregulares das margens; a mudarem sistematicamente de amostras, cada uma a mais extraordinária, na forma, nas cores, nos efeitos sonoros; a aguentarem a cresta solar com suor, desconforto e queixumes; a ligarem e a desligarem o motor do barco para aproximação aos sítios mais adequados e afastamento de locais perigosos; a capturarem, com todos os efeitos expressionais, gabarolices, desilusões e ironias, pequenos exemplares logo lançados à água ou cacetados para guardar, se o tamanho valesse; a mitigarem a sede amiúde e a deslumbrarem-se pela paisagem ora vidrada de água ora plena de verdura em margens selvagens; a verem surgir nos montes vinhateiros algumas moradias brancas incrustadas, lá mais para o alto, a despertarem-lhes sonhos de posse ou vivência.
Só quando o sol os libertou, desaparecendo no recorte dos montes, é que os achigãs se prestaram a abocanhar os pequenos engenhos enganosos. E foi nos sítios do costume, utilizando a enorme experiência de Vaz de Carvalho, que se satisfizeram as expectativas. Quatro ataques, quatro lutas breves, quatro capturas, quatro afectações mostradas à máquina fotográfica. O maior pesava 2,250 kg e os restantes eram ligeiramente inferiores. O VC engrandeceu-se com o achigã pesadão e o Nelson Mota diminuiu-se com um dos outros. Eu estive por ali apenas a atrapalhar. Poderá acontecer, que na próxima arremetida a estes belos peixes, eu me sinta mais útil e consiga apertar com os dedos aquelas bocas abertas de alguns deles, trazendo-os quietos para dentro do barco.
Paisagem 

As nozes do chão e os figos apanhados por entre as folhas verdes da figueira, souberam ao perfume da Quinta da Cumieira. A Mãe de Vaz de Carvalho assomou muito serena à varanda da casa, tão bem ainda triste, tão moldada ao cinzento do granito, que compunha aquelas colunas de entrada.
- Mãe, venho já. Vou levar o Luís.
Na rua dos Vasos (de Sta Marta) abracei a Elisinha. Jantámos na velha sala, olhando quadros eternos, falando de doenças, num cenário de móveis que me viram crescer.
De manhã seguimos para o Pinhão, barco atracado ao jipe. Na quentura das 9 horas, as poças de vinho duriense com os seus socalcos a subirem, a ajardinarem de verde todos aqueles montes, faziam-nos pequeninos. Que obra! A paisagem dos vinhedos do Douro esmagava-nos com o seu esplendor. Nada mais significava senão a grandeza, o êxtase, a glória. Haja mais pedras e mais monte, que a videira brotará na terra xistosa, sempre subindo por ali acima, tão certinha, guiada pela mão calosa de gerações e sob o olhar enternecido de quem sabe entender o esforço e o denodo do homem e da mulher durienses. Aqui, amadurece a uva, colhe-se e o milagre do melhor vinho acontece. Foi nesta epopeia que passámos o dia, como se percorrêssemos um museu. Nas margens, capturámos alguns achigãs. Poucos. Foram outros quatro de tamanho médio, com Vaz de Carvalho a somar.
Pinhão, 13 de Setembro de 2011
Barbo

Foi na Folgosa que metemos o barco na água, pela rampa do pequeno cais, frente ao AZDouro Café Restaurante. Eram 10h15, a navegarmos barragem acima, à procura dos emboscados achigãs. Neste dia a história conta-se bem depressa. Nas bermas, a centímetros de muros e nos baixios de pedra, sob as ramagens debruçadas, labutavam enormes barbos de 2 a 4 kgs. Alguns tinham 1 metro de comprimento. Procuravam alimentação, do género pequenos camarões e insectos aquáticos, bem como peixitos, batráquios e répteis desatentos. Quando nos aproximávamos desapareciam, afundando-se no mistério das águas. O nosso objectivo não era pescar estes monstros, mas achigãs. Estes, não se mostravam, excepto os mais pequenos, por inocência do perigo e talvez por causa daquela rebeldia juvenil. Os adultos esperavam escondidos, emboscados, que algo de comestível lhes passasse ao alcance. Assim aconteceu com três deles: um para a minha pequena amostra e dois para a barulhenta, berrante e estrambólica amostra de VC.
Mas, por baixo de enormes figueiras inclinadas para as águas, junto a muros velhos a limitarem águas baixas, fomos de novo como que desafiados pelos barbos. Quando nos pressentiam, imediatamente abandonavam o local. Não resisti ao desafio e num canto sossegado, consegui lançar certeiramente uma pequena rapala. Esta, caiu na água com naturalidade. Foi logo um reboliço: um enorme barbo furioso a tentar soltar-se do anzol triplo. Lutou arduamente durante vários minutos até à exaustão, procurando o fundo e a largueza do rio, até que o consegui meter no xalavar. Um digno exemplar! Teria uns 2 kgs. Admirei a harmonia de formas, a cor dourada, a força que transmitia. Libertei-o embevecido.
Não pescámos mais nada, nem barbos nem achigãs.
Regressámos ao cais da Folgosa sob o manto aveludado daquela tarde de Outono. Encontrámos o Visconde, um dos mais célebres pescadores locais, que nos propiciou uns apartes, olhando com atenção à volta para não ser ouvido.
Ficámos entusiasmados com os barbos e ficou marcada uma pescaria específica. Para variar dos achigãs.
E os alburnos, uma nova espécie introduzida, que aos milhões encardumavam à superfície das águas? Fiquei a pensar… embora a VC não lhe tivesse ocorrido a potencialidade destes pequenos peixes.
Folgosa, 6 de Setembro e 11 de Outubro de 2011
Luís M. Borges


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