Instantes
no tempo: mostre lá!
Já antes, em
pesca de achigãs, no meio de um perfume acre e desintoxicante provocado por
enormes figueiras inclinadas para as águas, onde os medronheiros e os silvados
se misturavam por entre eucaliptos, junto a muros negros e bolorentos, o que me
tinha atraído tinham sido os barbos, como que a pastarem feitos rebanho, mesmo
ali quase à mão. Quando nos pressentiam, logo nos deixavam o sítio vazio e
aquele castanho claro das pedras submersas da margem. Eu bem insistia de surpresa,
lançando-lhes um peixinho artificial, mas eles desprezavam a oferta insidiosa.
Até que, num cantinho sossegado, num buraco de água parada rodeado de galhos
secos, consegui lançar certeiro e com naturalidade o meu pequeno peixe
enganador. Seguiu-se imediatamente um enorme estardalhaço. O barbo surpreendido
nadou para o meio do rio, tentando salvar-se desesperadamente. Não lhe dei
tréguas, temendo sobretudo os obstáculos submersos, os quais inviabilizariam a
captura. Lutou arduamente durante 10 minutos até à exaustão.
Era um belo
exemplar! Que harmonia de formas, que cor dourada, que sensação de vitalidade. Acabei
por libertá-lo, terminando o dia de pesca em consciência.
No dia
seguinte o calor continuou a insistir, insatisfeito com a sua prestação de
Agosto. No grande lago de água da barragem navegámos para as suas margens.
Iniciámos as actividades por volta das 10h00, batendo todos os cantinhos com
mestria. Durante uma hora nada fez vibrar a cana!
Mudei de
amostra, aplicando uma “Minow”, pois sabia que os barbos não resistiriam ao
petisco. Com grande pontaria, lancei a amostra a centímetros do muro, sob uma
sombra prometedora. Senti imediatamente um forte puxão. Era um dos tais
barbalhões. Lutou, lutou, lutou…Finalmente, já no barco, pesei-o com alguma
dificuldade (1,9 kg) e medi-o (60 cm), acabando por o libertar também.
O barbo é um
peixe de respeito, tanto mais tratando-se de adultos com cerca de 2 kgs, plenos
de força, velocidade e resistência. O seu corpo fuselado, de uma beleza
aerodinâmica admirável, permite-lhe ser um campeão difícil de capturar. Quando
se pega um barbo maior de 5 ou 6 kgs é raro o pescador que consegue levar a
melhor, tal a violência com que se defende. Parte o fio, endireita os anzóis,
enfia-se nos buracos, emaranha-se nos galhos das árvores submersas, foge para o
meio do rio em correria louca. É um digno adversário.
O VC
deixou-se influenciar pela minha alegria e então decidiu aplicar uma rapala especial,
maior que a minha. Começou a bater certinho os cantos mais inacessíveis, mesmo
a dedos das pedras da margem, com um palmo de água. Fez logo a cópia do meu
êxito com um barbo de 4 kgs e 90 cm de comprimento, depois de um enfrentamento
que durou uns bons 15 minutos de concentração e de espectáculo. A cana vergou
em delírio, o fio assobiou nervoso e o carreto não parou de cantar excitado. O
chalavar recolheu aquele fabuloso peixe.
Pousámos à
meia hora para satisfazer o paladar no restaurante LBV79. No pequeno cais
pontuavam alguns pescadores, com uns tantos lúcios-percas pequenos nos baldes.
Demos com o Pereira, um velho conhecido vilarealense, que disparou a pergunta
habitual:
- Pescaram
alguma coisa?
- Temos aqui
uns barbos enormes – respondeu VC.
- Mostre lá!
Assim fiz,
correspondendo ao pedido e peguei no maior bicho com uma mão e levantei-o, para
que a pose se transformasse em admiração. Realmente, abriram-se bocas e
arregalaram-se olhos. E tão vaidoso eu estava, que esqueci o cuidado. O barbo
pesado escorregou-me da mão e acabou por cair na água, começando a afundar-se
lentamente, para meu desespero. Ainda corri para o chalavar. Olhei para o
Pereira em desespero, a ponto de ele dizer:
- Por favor,
não me culpe pelo sucedido.
- Não. Estou
furioso é comigo. O barbo era de VC e tinha destino. Fui eu que facilitei.
Na volta,
para o recomeço da pesca, a minha irritação ainda cantava em coro com o barulho
do trabalhar do motor do barco:
- Mostre Lá!
Mostre lá! Mostre lá!
Vaz de Carvalho
ria-se e prometeu que de tarde iríamos pescar barbos ainda maiores e disse:
- Deixe lá!
Sorri-me ao
remoque encaixando o trocadilho, em rumo para o sítio certo dos barbos grandes.
E lá estavam eles, encostadinhos ao muro, entretidos, confiantes, enormes, lindos,
esbeltos. O VC confiou numa grande mosca negra “cabeça amarela”, mais uma
inventada por ele. Esta técnica era muito mais subtil do que a vulgar rapala. O
certo é que os barbos enlouqueceram à vista daquela pequena mosca artificial,
atirando-se a ela com uma sofreguidão imprudente. O espalhafato iniciava a fuga
plena de fúria, obrigando o VC a esforços continuados, levando quase sempre os
barbos a submeterem-se ao chalavar. Um deles media 98 cm e pesava 4,5 kgs.
- Esse é
mesmo o maior. Mostre lá! – Elogiei-o deste modo.
No regresso,
barbos enormes comprimiam-se na ré do barco, devidamente escondidos, por causa
de pedidos impertinentes.
Tínhamos
pescado 14 barbos, o mais pequeno com 1,5 kg e o maior com 4,5 kgs. Vaz de
Carvalho pescou 9 e o maior exemplar. Foi um dia de dádiva plena. Nem só de
uvas e de vinho se faz o Douro.
Rio
Douro, Pinhão, 14 de Outubro de 2011
Luís M. Borges

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