Os carriços
Entrámos na quinta pelo campo de camomila. Cheirava a chá e bebia-se o
amarelo das pequenas flores. Mais adiante, colhemos cominhos e pisámos poejo. A
intensidade deste ambiente perfumado contradizia a pestilência da cidade. Um
muro alto, encimado por loureiros, impedia-nos a passagem para o rio, que já
nos falava baixinho, inacessível. Continuámos a procurar, por entre entremeadas
de fetos e de silvedos. Finalmente, descobrimos uma passagem íngreme, que nos
colocou sob as abóbadas de altos amieiros. Recebeu-nos a água a ralhar na
cascalheira, para uma aproximação cuidadosa. Mostravam-se os carriços em tufos
viçosos, escondendo buracos e tornando perigosa a marcha. No descuido ansioso
da pesca, mesmo pensando, mesmo a perscrutar, mesmo tacteando com o pé, acabei
por me estatelar. Encharquei as botas e meio corpo. A água gelada tomou-me.
Tive de refazer o caminho de volta e efectuar a muda no jipe. Uma hora de
atraso!
No retomar, contei a Vaz de Carvalho o sucedido. Sorriu, nem se
desconcentrando da pesca, pois os escalos sucediam-se, no remanso de uma pedra
alta imergente.
Escolhi um local que me pareceu promissor, em jeito de estreito, onde
a água corria no meio do rio, mas refluía para a minha margem. Foquei-me nos
peixes, com os óculos anti-reflexo, acabando por os descobrir em intensa
actividade. Uma truta, algumas bogas e escalos…Os carriços escondiam-me no
verde, agora na necessidade da dissimulação. Os carriços, sempre os carriços…
A bóia começou então a circular, inocentemente, contendo a armadilha
mortal. O isco, pão amassado em bolinhas brancas, cobria o anzol. As bogas não
se contiveram, vorazes.
À luz frágil do fim do dia, chilrou em alarme um melro-preto.
Rio Olo, 19 de Junho de 2012
Luís M. Borges

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