domingo, 10 de agosto de 2014

18. Memórias ao longo dos rios: Rio Olo e os Carriços



Os carriços
 
Entrámos na quinta pelo campo de camomila. Cheirava a chá e bebia-se o amarelo das pequenas flores. Mais adiante, colhemos cominhos e pisámos poejo. A intensidade deste ambiente perfumado contradizia a pestilência da cidade. Um muro alto, encimado por loureiros, impedia-nos a passagem para o rio, que já nos falava baixinho, inacessível. Continuámos a procurar, por entre entremeadas de fetos e de silvedos. Finalmente, descobrimos uma passagem íngreme, que nos colocou sob as abóbadas de altos amieiros. Recebeu-nos a água a ralhar na cascalheira, para uma aproximação cuidadosa. Mostravam-se os carriços em tufos viçosos, escondendo buracos e tornando perigosa a marcha. No descuido ansioso da pesca, mesmo pensando, mesmo a perscrutar, mesmo tacteando com o pé, acabei por me estatelar. Encharquei as botas e meio corpo. A água gelada tomou-me. Tive de refazer o caminho de volta e efectuar a muda no jipe. Uma hora de atraso!
No retomar, contei a Vaz de Carvalho o sucedido. Sorriu, nem se desconcentrando da pesca, pois os escalos sucediam-se, no remanso de uma pedra alta imergente.
Escolhi um local que me pareceu promissor, em jeito de estreito, onde a água corria no meio do rio, mas refluía para a minha margem. Foquei-me nos peixes, com os óculos anti-reflexo, acabando por os descobrir em intensa actividade. Uma truta, algumas bogas e escalos…Os carriços escondiam-me no verde, agora na necessidade da dissimulação. Os carriços, sempre os carriços…
A bóia começou então a circular, inocentemente, contendo a armadilha mortal. O isco, pão amassado em bolinhas brancas, cobria o anzol. As bogas não se contiveram, vorazes.
À luz frágil do fim do dia, chilrou em alarme um melro-preto.
Rio Olo, 19 de Junho de 2012
Luís M. Borges

Nenhum comentário:

Postar um comentário