domingo, 10 de agosto de 2014

14. Memórias ao longo dos rios: Rio Corgo


Surpreendidos…
 
Aquela truta surpreendeu-nos. Perante tanta esterilidade, no volteio incessante do buldo, onde as nossas moscas artificiais invadiam recantos pacatos, uma truta decidiu vorazmente prender-se.
Eu vi o Dr Luís Costa surpreendido. Eu também me surpreendi.
O dia estava a cair vazio, naquela tarde de pesca, mais no querer recordar antigas andanças juvenis, do que propriamente em louvar a paixão da captura. Éramos quase todos nados e criados em Vila Real e o Corgo foi o nosso pátio. Por isso, um dia somámos intenções e decidimos agir para desbobinar tempo, excepto o Adérito, que de África apenas projectava lembranças de caça, lá por Moçâmedes.
- Parece impossível! Ainda há trutas destas no Corgo? Com 41 cm?
Foi no fechar, que esta interrogação sacralizou o momento, interrompido pelo Dr Adérito:
- Veja esta enorme boga Dr Costa. Mede 29 cm.
- E este escalo com 19 cm? – Envaideci eu.
Estes três únicos exemplares de proporções invulgares, valeu-nos o dia de pesca, reverenciado pelo desejo em demasia de todos nos querermos sentir unanimes com estes belos prémios de recordação.
Foi isto, que aconteceu em dia de rio alto, águas cristalinas e céu encoberto, no Corgo da nossa infância.
Vaz de Carvalho falou e sobressaiu-se em peixes que contavam histórias. Não poderia ser doutro modo. Ele foi dono deste rio há muito tempo!
Escariz, 27 de Maio de 2012
Luís M. Borges

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