Rio
Poio fora do tempo
Em Cerva, convenci-me que o rio Poio, faria reviver em felicidade as
recordações de Vaz de Carvalho. Em pequeno, ele iludia os peixes com as moscas
apanhadas à mão na cozinha, às quais arrancava uma asa de modo a não poderem
voar, guardando-as de seguida numa caixa de fósforos. A bóia de cortiça
assinalava o toque. Alegria das alegrias, quando a boga ou o escalo, se serviam
do petisco. A cana de bambu era a cana perfeita, com a sediela grossa e o anzol
nº 12, a comporem o conjunto. Naquele tempo, o rio era muito cuidado, pois os
donos das terras mantinham “levadas” que retinham as águas, cortavam o mato das
margens, aparavam as árvores. Locais para a pesca bem arejados não faltavam,
com acessos desimpedidos. A poluição era inexistente. Tudo isto me contava Vaz
de Carvalho, olhos passados a olhar as cacifradas, que a custo levava para a casa
de Cerva. Arroz malandro de feijão ou batatas cozidas, acompanhavam o peixe
frito, a compensar o dia passado a pescar. Era assim em tempos idos!
Agora, o rio Poio está lá, é um facto. Contudo, acessos só de silvas,
fetos e urtigas; margens só de árvores e ramagens cruzadas, impenetráveis; “levadas”
só de poças e cascalheiras; água pura de rio saudável, só de mixórdia. Mas o
pior acontece duas vezes por dia: a subida brusca das águas, como de cheia se
tratasse, resultante das descargas da mini-hídrica. Água descida por tubagens
quase na vertical, a uma velocidade incrível, provinda da barragem construída
no alto da serra. Um transvase anti-natural. As consequências para a vida
animal e vegetal do rio são violentas, senão criminosas. Até os seixos das
cascalheiras passaram de brancos a negros, são malcheirosos e escorregadios. A
água é bastarda.
Eu pensava, que Vaz de Carvalho iria reviver o seu passado no Poio.
Mas não, as belas recordações entraram em conflito com a desilusão do presente,
o ferrete da destruição, a inconsciência do abandono e a irresponsabilidade dos
nossos “supremos” dirigentes. Ainda conseguimos pescar 2 trutas, o Vaz de
Carvalho rio acima e eu por ali, a praguejar de picado, de ensarilhado
constantemente, caindo em buracos escondidos, mordido por mosquitos, rasgado
por silvas agrestes, suado, exausto…Selva, em dia de ira!
Compensámos na casa do Tó, que insistiu. À meia-noite erguemos as
nossas taças, a assinalar os 65 anos de Vaz de Carvalho, com o pensamento no
rio fora do tempo e quase fora do mundo.
Cerva, 25 de Junho de 2012
Luís M. Borges

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