Rio Covas, mais Negro talvez
Diz-me se o rio é negro.
Diz-me se os peixes são negros.
São!
Diz-me se as mãos ficam negras de agarrar os peixes.
Ficam!
Mas, do lado de lá as vacas gordas indiferentes e os choupos altos a costurarem
a margem, não são negros.
No meio, as labaças são castanhas com intervalos de areão branco.
Do lado de cá, por entre tojos cerrados, com carvalhos a sombrearem,
despontam dois pescadores vestidos de verde. Não querem saber como vai o mundo
humano, mas decoram detalhes de novos chilreios, do coaxar das rãs, do brilho
dos montes, do ar fresco da manhã, da truta a espreitar e dos escalos a
cruzarem-se, da linha do sol. Que interessa um homem sem um contexto?
Neste poliedro colorido chibatei uns escalos enormes, como em lado
nenhum se conseguem. Eram gordos, reboludos, escamudos, escuros. E também uma
truta pintalgada como deve ser, talvez atraída pela ganância dos escalos e pelo
contraste da mosca negra.
À tardinha, o Vítor decidiu acrescentar mais animação, chegando de
carrinha carregada, mostrando presunto, queijo, pão e vinho e conversa animada,
obviamente. Tão animada, que o Adérito esqueceu a pesca, no prolongamento das
histórias.
Despedidas aceites e obrigados repetidos, o Adérito já de pés molhados,
ainda mais se molhou a pescar na beirada uma grande truta, que quis juntar-se à
festa, mas na dieta de três pequenas minhocas rabionas.
Ao anoitecer, o meu cesto de verga assumia-se bem recheado. Eu,
contemplava e felicitava-me por estes pedaços de vida…e surgiu-me uma frase do
poeta Vítor Nogueira:
-“Envelhecer, envelhecer. Não se importam que paremos?”
Vila Grande, 29 de Junho de
2012
Luís M. Borges

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