domingo, 10 de agosto de 2014

20. Memórias ao longo dos rios: Rio Covas



Rio Covas, mais Negro talvez
 
Diz-me se o rio é negro.
Diz-me se os peixes são negros.
São!
Diz-me se as mãos ficam negras de agarrar os peixes.
Ficam!
Mas, do lado de lá as vacas gordas indiferentes e os choupos altos a costurarem a margem, não são negros.
No meio, as labaças são castanhas com intervalos de areão branco.
Do lado de cá, por entre tojos cerrados, com carvalhos a sombrearem, despontam dois pescadores vestidos de verde. Não querem saber como vai o mundo humano, mas decoram detalhes de novos chilreios, do coaxar das rãs, do brilho dos montes, do ar fresco da manhã, da truta a espreitar e dos escalos a cruzarem-se, da linha do sol. Que interessa um homem sem um contexto?
Neste poliedro colorido chibatei uns escalos enormes, como em lado nenhum se conseguem. Eram gordos, reboludos, escamudos, escuros. E também uma truta pintalgada como deve ser, talvez atraída pela ganância dos escalos e pelo contraste da mosca negra.
À tardinha, o Vítor decidiu acrescentar mais animação, chegando de carrinha carregada, mostrando presunto, queijo, pão e vinho e conversa animada, obviamente. Tão animada, que o Adérito esqueceu a pesca, no prolongamento das histórias.
Despedidas aceites e obrigados repetidos, o Adérito já de pés molhados, ainda mais se molhou a pescar na beirada uma grande truta, que quis juntar-se à festa, mas na dieta de três pequenas minhocas rabionas.
Ao anoitecer, o meu cesto de verga assumia-se bem recheado. Eu, contemplava e felicitava-me por estes pedaços de vida…e surgiu-me uma frase do poeta Vítor Nogueira:
-“Envelhecer, envelhecer. Não se importam que paremos?”
Vila Grande, 29 de Junho de 2012
Luís M. Borges


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