Um amor-perfeito na lapela do
pescador
O primeiro passo, demo-lo na confluência dos rios Bessa e Covas. O único
habitante de Gardunho, o António, alegrou-se ao ver-nos, enquanto no pátio avivava
a fogueira e metia batatas descascadas na panela preta de ferro de 3 pés. Em
baixo, ao longo dos dois rios, pescadores espanhóis e portugueses calcorreavam
as margens descarnadas, mirando desiludidos a pouca água lusa que corria.
Trocávamos sempre umas impressões e os temas eram sempre os mesmos: pouca truta
e caudais diminutos. E referia-se o antigamente dos dias que cantavam dezenas
de trutas. As histórias convenciam, porque nos iludiam. Debandámos do Gardunho
com promessas ao António de um regresso breve, dirigindo-nos para Canedo.
Na véspera, tínhamos sido convidados para um almoço no Parque de Merendas
de Canedo. Fomos recebidos com alegria e logo nos amanhámos às febras grelhadas
bem temperadas, ao pão caseiro tostado, ao vinho tinto com travo a americano. O
dia espalhava-se cheio de sol sobre as conversas do grupo, a baterem sempre nas
ausentes trutas, excepção para o Zé Maria, que brandia a única truta do dia
pendurada na amostra. Depois do inevitável café, perfumado com bagaço, o
Domingos desejou-nos uma tarde de trutas. Lá nos desembaraçámos, no sentido da
descaída, abaixo do Parque das Merendas. O Vaz de Carvalho à rapala e eu à
colher. Prendi 7 a condizerem com o tamanho da colher, de tão pequenas que
eram, entre os 12 e os 15 cm de comprimento. Foi água com elas, com
recomendações de que viessem ao “pai” num futuro próximo, crescidas e gordas. Uma
hora passada, chegou o Vaz, cana encolhida, bem-disposto, mas calado.
A segunda prospecção efectuou-se na Ponte de Torneiro. A vista era de
pedras, um rio de pedras. A pouca água escorria entre os fraguedos, escondida,
em parte o resultado da mini-hídrica. Ao arrancarmos deste local estéril, mais
uma vez sem currículo piscatório, ficou-nos o olhar turvo daquele rio de
pedras.
Lá para as 18h00 fixámo-nos na ponte maneirinha de Polderado de
Balteiro, em Ribeira de Pena, no Rio Tâmega. Zumba que zumba, para cima para
baixo, muda que muda… Só a conversa afeiçoada de um velhote me deu lembranças à
pesca. Este folhear de cacifos cheios apagou-se de repente com um chamamento de
truta pescada. O Vaz tinha safado a “grade” com uma meia-quileira, bonita de se
ver. Um amor-perfeito…Encerrou-se assim este dia, em jeito de serviço mínimo!
Em Cerva, no Restaurante “O Mineiro” do amigo Jorge, esta truta foi
primorosamente tratada como aperitivo, no contexto de um vinho verde branco.
No dia seguinte, na casa do Coimbra em Quintela, acordámos como gente
do antigamente…e dúvidas do presente.
- Vamos pescar para onde? É que não há água ao jeito das trutas, não
há sombras, se calhar nem trutas. Certezas de nada!
O Gardunho firmou-nos a decisão: se lá as houver lá as teremos, se lá
não as houver…
Já no estradão poeirento, decidimos descer junto às ruinas das minas
de Padronelos (de estanho e de volfrâmio) rumo à Mini-hídrica. Nesta pequena
barragem mimámos a água com insistência, em deambulação, na fé e na esperança
de termos sinais. Só nos responderam o vento glacial e aquela velha e inútil
ponte de arame, a balancear. De peixe, só vimos o atum da lata de conserva, que
nos serviu de almoço…
Depois, repetimos o lugar da ponte de Polderado. Pois sim, foi só
repetição!
No regresso para Matosinhos, ao atravessarmos a Ponte de Cavez, o
olhinho matreiro de Vaz de Carvalho, num relance fugaz, fê-lo ditar:
- Vou ali tirar umas trutas.
Desceu, susteve-se numa pedra, lançou a rapala e logo zuniu o carreto
com uma bela dama. Corri a ajeitar o galripo para a acolher em segurança. Qual
quê, acontece que de vez em quando somos uns trapalhões…pelo que deixei sumir a
truta nas águas do Tâmega. Porém, logo o Vaz apanha a irmã mais velha da fujona.
Desta vez, ao fracasso da primeira truta, seguiu-se a razão que me assistia, a
de não permitir mais uma fuga!
Com o céu a cobrir-se de negro, papámos léguas até Matosinhos, não sem
antes nos termos abastecido de moiras e de alheiras em Arco de Baúlhe. Por
incrível que pareça, lá fomos entretendo a vaidade, recordando as duas únicas
trutas de jeito, dois amores-perfeitos, um em cada dia, com o VC a pescá-las e
eu a pegá-las ao colo. É da pesca, vá lá!
Dias 1 e 2 de Março de 2012
Luís M. Borges




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