sábado, 9 de agosto de 2014

2. Memórias ao longo dos rios: um amor perfeito na lapela do pescador



Um amor-perfeito na lapela do pescador
O primeiro passo, demo-lo na confluência dos rios Bessa e Covas. O único habitante de Gardunho, o António, alegrou-se ao ver-nos, enquanto no pátio avivava a fogueira e metia batatas descascadas na panela preta de ferro de 3 pés. Em baixo, ao longo dos dois rios, pescadores espanhóis e portugueses calcorreavam as margens descarnadas, mirando desiludidos a pouca água lusa que corria. Trocávamos sempre umas impressões e os temas eram sempre os mesmos: pouca truta e caudais diminutos. E referia-se o antigamente dos dias que cantavam dezenas de trutas. As histórias convenciam, porque nos iludiam. Debandámos do Gardunho com promessas ao António de um regresso breve, dirigindo-nos para Canedo. 


Na véspera, tínhamos sido convidados para um almoço no Parque de Merendas de Canedo. Fomos recebidos com alegria e logo nos amanhámos às febras grelhadas bem temperadas, ao pão caseiro tostado, ao vinho tinto com travo a americano. O dia espalhava-se cheio de sol sobre as conversas do grupo, a baterem sempre nas ausentes trutas, excepção para o Zé Maria, que brandia a única truta do dia pendurada na amostra. Depois do inevitável café, perfumado com bagaço, o Domingos desejou-nos uma tarde de trutas. Lá nos desembaraçámos, no sentido da descaída, abaixo do Parque das Merendas. O Vaz de Carvalho à rapala e eu à colher. Prendi 7 a condizerem com o tamanho da colher, de tão pequenas que eram, entre os 12 e os 15 cm de comprimento. Foi água com elas, com recomendações de que viessem ao “pai” num futuro próximo, crescidas e gordas. Uma hora passada, chegou o Vaz, cana encolhida, bem-disposto, mas calado.

A segunda prospecção efectuou-se na Ponte de Torneiro. A vista era de pedras, um rio de pedras. A pouca água escorria entre os fraguedos, escondida, em parte o resultado da mini-hídrica. Ao arrancarmos deste local estéril, mais uma vez sem currículo piscatório, ficou-nos o olhar turvo daquele rio de pedras.
Lá para as 18h00 fixámo-nos na ponte maneirinha de Polderado de Balteiro, em Ribeira de Pena, no Rio Tâmega. Zumba que zumba, para cima para baixo, muda que muda… Só a conversa afeiçoada de um velhote me deu lembranças à pesca. Este folhear de cacifos cheios apagou-se de repente com um chamamento de truta pescada. O Vaz tinha safado a “grade” com uma meia-quileira, bonita de se ver. Um amor-perfeito…Encerrou-se assim este dia, em jeito de serviço mínimo!


Em Cerva, no Restaurante “O Mineiro” do amigo Jorge, esta truta foi primorosamente tratada como aperitivo, no contexto de um vinho verde branco.
No dia seguinte, na casa do Coimbra em Quintela, acordámos como gente do antigamente…e dúvidas do presente.
- Vamos pescar para onde? É que não há água ao jeito das trutas, não há sombras, se calhar nem trutas. Certezas de nada!
O Gardunho firmou-nos a decisão: se lá as houver lá as teremos, se lá não as houver…
Já no estradão poeirento, decidimos descer junto às ruinas das minas de Padronelos (de estanho e de volfrâmio) rumo à Mini-hídrica. Nesta pequena barragem mimámos a água com insistência, em deambulação, na fé e na esperança de termos sinais. Só nos responderam o vento glacial e aquela velha e inútil ponte de arame, a balancear. De peixe, só vimos o atum da lata de conserva, que nos serviu de almoço…
Depois, repetimos o lugar da ponte de Polderado. Pois sim, foi só repetição!
No regresso para Matosinhos, ao atravessarmos a Ponte de Cavez, o olhinho matreiro de Vaz de Carvalho, num relance fugaz, fê-lo ditar:
- Vou ali tirar umas trutas.


Desceu, susteve-se numa pedra, lançou a rapala e logo zuniu o carreto com uma bela dama. Corri a ajeitar o galripo para a acolher em segurança. Qual quê, acontece que de vez em quando somos uns trapalhões…pelo que deixei sumir a truta nas águas do Tâmega. Porém, logo o Vaz apanha a irmã mais velha da fujona. Desta vez, ao fracasso da primeira truta, seguiu-se a razão que me assistia, a de não permitir mais uma fuga!
Com o céu a cobrir-se de negro, papámos léguas até Matosinhos, não sem antes nos termos abastecido de moiras e de alheiras em Arco de Baúlhe. Por incrível que pareça, lá fomos entretendo a vaidade, recordando as duas únicas trutas de jeito, dois amores-perfeitos, um em cada dia, com o VC a pescá-las e eu a pegá-las ao colo. É da pesca, vá lá!
Dias 1 e 2 de Março de 2012 
Luís M. Borges



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